Você estava de batom vermelho e eu simplesmente não conseguia parar de olhar para você. Nem quis tentar. Dessa vez não. Queria que você olhasse para mim.
Você não queria fumar, não queria fazer absolutamente nada que borrasse o seu batom. Qualquer coisa assim estragaria a sua pele, sua branca pele linda. Você é completamente chata e eu sempre soube disso, mas, por Deus, eu só queria te beijar. Não conseguia mais olhar para você daquele jeito, tão bonitinha, tão enxuta, tão pequena, com seu rabo-de-cavalo. Até naquele puta calor daquele show você não se desfazia. Com suas perninhas lindas. Toquei seus lábios, de levinho, de surpresa. Você deu um gritinho! Meu Deus, que lady. Só me dava vontade de te beijar, principalmente enquanto eu deitava no seu colo e você fazia carinho nas minhas costas.
Você foi a primeira mulher que eu beijei. Eu simplesmente queria arrumar um carro, uma carteira de habilitação, um dinheiro e um punhado de roupas e sair daqui com você. Eu só queria sair daqui com você.
E te beijar, e te fazer carinho nas costas. Em algum lugar em que você não fosse tão boba a ponto de não querer sujar o seu batom e perder a compostura.
Eu queria ir até algum lugar em que não tivesse quem olhar pra você, só eu. Assim você prestaria mais atenção em mim, prestaria atenção que naquela noite não era só mais uma daquelas em que eu estava esperando um pouco de sorte e que você ditasse as regras. Não, meu bem, definitivamente não. Eu só queria te olhar. Mesmo sabendo que você não ia me beijar daquela vez, mesmo sabendo que no fundo no fundo no fundo eu não te atraía tanto quanto você me atraía, eu juro, eu só queria olhar pra você.
Olhar tanto tempo e tão fundo nos seus olhos a ponto de você achar engraçado. Não costumo encarar os outros dessa forma, mas eu simplesmente precisava daquele momento. Precisava capturar aquilo, precisaria me lembrar em um futuro bem distante que você é a mulher mais linda que eu já conheci na minha vida. A mais atraente, mais sexy, complicada e simplesmente chata. Pseudo-intelectual e bem variável. Você me encantava. Eu simplesmente precisei deixar registrado o quanto a sua presença me regozijava e me inquietava. Ter você o show inteiro dançando comigo e segurando a minha mão o mais forte possível que a sua altura lhe permitia. Olhando a sua boca, seu batom, e pensando "puta que pariu!"
Eu só conseguia pensar puta que pariu. Eu queria sair correndo e levar você nas costas.
Você sempre seria mais do que uma amiga, a minha companheira de alma. A primeira garota que eu beijei na vida. Eu nunca me esqueceria de você. Naquela noite, eu tive essa certeza.
"A verdade? É uma coisa exterior? Não posso ter a certeza dela, porque não é uma sensação minha, e eu só destas tenho certeza." Fernando Pessoa
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domingo, 8 de março de 2015
in the afternoon you said to me
"baby i'm leaving"
and even though i had heard
"ok honey i'm going to hell i'm going to meet all the bitches in the word: i'm gonna go everywhere without you"
i just lot patiently at you and told you that it was alright.
it is. even in the planes where there are people and all their sickness and all their remedys and all their: "i need to turn on the light here even if you asleep, i am so sorry"
it is alright, but i don't know why it is so hard to love people when they are breathing next to you
and i know that should be a good opportunity to get to know them, but
well, in those moments i just want to scream
and run away. indeed.
in that moment when you are flying but you have no air.
and it is alright, baby, let's enjoy the clouds.
i actually don't know why it is so hard to like people.
sitting next to a person that you don't know but could get to
should be lovely. for the others, may it happens.
but ok God, let's try it one more time:
i will try to keep being a good person
and smiling at people and taking good chances and helping them.
i will try because i don't want to go to hell or whatever people call
it: probably there i would meet a lot of killers, rapists, pedophiles, and all human with
no soul.
and i really don't have an idea if the person sitting beside me is one
of these. but during the flight i promise just to think the best.
it is a good person. it is a good person. it is a good person.
dear God, i am afraid it isn't.
at least in there i have the doubt. in the hell i would be sure about it.
"hey baby i'm leaving"
i need a remedy.
"baby i'm leaving"
and even though i had heard
"ok honey i'm going to hell i'm going to meet all the bitches in the word: i'm gonna go everywhere without you"
i just lot patiently at you and told you that it was alright.
it is. even in the planes where there are people and all their sickness and all their remedys and all their: "i need to turn on the light here even if you asleep, i am so sorry"
it is alright, but i don't know why it is so hard to love people when they are breathing next to you
and i know that should be a good opportunity to get to know them, but
well, in those moments i just want to scream
and run away. indeed.
in that moment when you are flying but you have no air.
and it is alright, baby, let's enjoy the clouds.
i actually don't know why it is so hard to like people.
sitting next to a person that you don't know but could get to
should be lovely. for the others, may it happens.
but ok God, let's try it one more time:
i will try to keep being a good person
and smiling at people and taking good chances and helping them.
i will try because i don't want to go to hell or whatever people call
it: probably there i would meet a lot of killers, rapists, pedophiles, and all human with
no soul.
and i really don't have an idea if the person sitting beside me is one
of these. but during the flight i promise just to think the best.
it is a good person. it is a good person. it is a good person.
dear God, i am afraid it isn't.
at least in there i have the doubt. in the hell i would be sure about it.
"hey baby i'm leaving"
i need a remedy.
Eu sinto faíscas que explodem no meu peito
E fazem malabarismos no ar sem que eu as veja
Eu escrevo e digo alto que acordei hoje cedo
E de tanto escrever o mundo, ele acabou me escrevendo
Assim como eu, outras milhares
Que são uma linha infinita de diferencial
Das outras que são tantas
E por serem tantas são tantas vezes mais do que são
Uma mulher me deu a vida de sua vida
A contragosto dos machismos, preconceitos, fobias sociais
Exaustão me dada nos nervos que faz com que eu quase perca o fôlego
Todas as mulheres são vida.
Aspiram vida, inalam vida, dão vida
Uma mulher é a arte porque a arte
A imita perfeitamente assim a luz do sol
Imita o sol.
O toque, o mistério, o cinismo e os ciclos
São apenas mais uma gaveta dentro de um armário extenso
Pois o que guarda tudo é sempre mais valioso do que tudo
É preciso ser arte, sentir arte, para depois, fazer arte
Mulheres morreram na fogueira para que eu pudesse ler isto
Joana D'arc lutou contra tantos antes de vocês me ouvirem
Cleópatra, Maria da Penha, Marie Curie, Cora Coralina, Carmen Miranda, Madre Teresa de Calcutá
Mulheres que mudaram o mundo ou apenas a elas mesmas (que são o mundo)
Talvez lhe passe pela cabeça, mesmo sem aspereza
Mas e Da Vinci, Bukowski, Freud, Vinicius de Moraes, Veríssimo?
Bom, meu amor, todos eles pintavam, escreviam, analisavam
Mulheres
Por isso, se um dia mais cedo ou muito antes
Eu for embora da vida
Não te entristeça a face
Não derrame uma lágrima
Pois ao levantar de manhã quase que imagino o céu
E quando olho no rosto de todas as coisas
Sou todas as coisas sem que eu me deixe de ser
Por isso, olhe pra mim, apenas olhe pra mim
Em qualquer canto há de me encontrar
Clarice uma vez disse baixinho quase no meu ouvido que
A vida se me é
E a vida se nos é, a vida se nos é a todas.
E fazem malabarismos no ar sem que eu as veja
Eu escrevo e digo alto que acordei hoje cedo
E de tanto escrever o mundo, ele acabou me escrevendo
Assim como eu, outras milhares
Que são uma linha infinita de diferencial
Das outras que são tantas
E por serem tantas são tantas vezes mais do que são
Uma mulher me deu a vida de sua vida
A contragosto dos machismos, preconceitos, fobias sociais
Exaustão me dada nos nervos que faz com que eu quase perca o fôlego
Todas as mulheres são vida.
Aspiram vida, inalam vida, dão vida
Uma mulher é a arte porque a arte
A imita perfeitamente assim a luz do sol
Imita o sol.
O toque, o mistério, o cinismo e os ciclos
São apenas mais uma gaveta dentro de um armário extenso
Pois o que guarda tudo é sempre mais valioso do que tudo
É preciso ser arte, sentir arte, para depois, fazer arte
Mulheres morreram na fogueira para que eu pudesse ler isto
Joana D'arc lutou contra tantos antes de vocês me ouvirem
Cleópatra, Maria da Penha, Marie Curie, Cora Coralina, Carmen Miranda, Madre Teresa de Calcutá
Mulheres que mudaram o mundo ou apenas a elas mesmas (que são o mundo)
Talvez lhe passe pela cabeça, mesmo sem aspereza
Mas e Da Vinci, Bukowski, Freud, Vinicius de Moraes, Veríssimo?
Bom, meu amor, todos eles pintavam, escreviam, analisavam
Mulheres
Por isso, se um dia mais cedo ou muito antes
Eu for embora da vida
Não te entristeça a face
Não derrame uma lágrima
Pois ao levantar de manhã quase que imagino o céu
E quando olho no rosto de todas as coisas
Sou todas as coisas sem que eu me deixe de ser
Por isso, olhe pra mim, apenas olhe pra mim
Em qualquer canto há de me encontrar
Clarice uma vez disse baixinho quase no meu ouvido que
A vida se me é
E a vida se nos é, a vida se nos é a todas.
Hoje
Hoje é sexta
Já são quase 11
E você não me ligou
Hoje é sexta
E você foi pra casa dela
Dei um sorriso tímido
Mas não fui sincera
Será que eu faço parte
De alguma coisa que já foi inteira
Ou será que estou apenas
Tentando juntar os cacos?
Hoje é sexta e eu quis abrir as asas
Voar pra onde eu encontrasse respostas
Ou ao menos seu cheirinho
Sem essa poeira das caixas
De mudança
Eu vou sair daqui, eu digo
Mas cinco minutos depois eu volto
Por conforto ou desespero
Por saudade ou aconchego
Hoje é sexta e eu nem sei de você
Vou dormir sem saber como foi o seu dia porque
Talvez eu não queira nem saber
Pra não me aborrecer
Você me olha e diz que meus olhos são verdes
E eu quase digo que eu não sei dizer
Porque eu já decorei todos os seus tipos de sorriso
Mas você me olha e não consegue me ver
E eu estou buscando palavras que se esvaem
Só pra dizer
Que hoje é sexta e eu
Eu não sei de você
Já são quase 11
E você não me ligou
Hoje é sexta
E você foi pra casa dela
Dei um sorriso tímido
Mas não fui sincera
Será que eu faço parte
De alguma coisa que já foi inteira
Ou será que estou apenas
Tentando juntar os cacos?
Hoje é sexta e eu quis abrir as asas
Voar pra onde eu encontrasse respostas
Ou ao menos seu cheirinho
Sem essa poeira das caixas
De mudança
Eu vou sair daqui, eu digo
Mas cinco minutos depois eu volto
Por conforto ou desespero
Por saudade ou aconchego
Hoje é sexta e eu nem sei de você
Vou dormir sem saber como foi o seu dia porque
Talvez eu não queira nem saber
Pra não me aborrecer
Você me olha e diz que meus olhos são verdes
E eu quase digo que eu não sei dizer
Porque eu já decorei todos os seus tipos de sorriso
Mas você me olha e não consegue me ver
E eu estou buscando palavras que se esvaem
Só pra dizer
Que hoje é sexta e eu
Eu não sei de você
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Encontro
As ruas me parecem enormes demais. Quando as olho, aqui de casa, mal consigo me mover. As ruas são ponto de encontros. Assim como as casas e os bares e os shoppings. Que estão nas ruas.
A rua vem antes.
É delas que surgem o meu medo do que eu possa ver e do que posso não ver. Ando pelas ruas buscando encontrar o que existe.
As ruas estão apinhadas e vazias. Elas gritam também quando estão vazias.
A rua é a terra, são as histórias, as pessoas, os lares, as matanças e os sequestros.
A rua existe antes daquilo que existe.
Eu vou pra lá porque uma parte de mim existe antes do existir.
Quando eu era pequena e me olhava no espelho não conseguia entender o que vinha por trás do meu rosto e das minhas ligações cerebrais. Não conseguia entender o que era o mundo material.
Eu sempre fui de dentro pra dentro.
Às vezes não gosto de olhar. Me dá medo me olhar e ver que sou uma figura estranha que enxergo a mim. Como é uma pessoa ver a ela mesma? Eu era muito nova pra pensar essas coisas.
Acho que foi o divisor de águas da minha infância. A passagem pro sofrimento.
Eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo.
Achava o corpo humano um espaço muito limitado para se ficar.
Achei aprisionante todas as minhas partes. Foi aí que a vida começou a acontecer para mim.
Quando eu me vi no espelho da casa de uma amiga e não conseguia acreditar que o meu cérebro era tudo que eu era. Era inconcebível.
Eu não me sentia com 12 anos de idade, não me sentia com aquele corpo, rosto, com meus braços e dentes. Eu me via tão diferente dentro de mim. Foi como se eu tivesse morrido. Eu morri quando a vida começou a acontecer.
Nunca achei que o meu corpo era um lugar meu. Não acho que ninguém mora dentro do seu corpo.
Eu não tinha mais medo de nada como tinha medo daquele mistério. Eu olhava pra mim e não me via.
Eu tive consciência de mim.
Eu me olhei e fiquei alheia de mim mesma.
Foi quando eu pensei: o que esse cérebro faz dentro da minha alma?
O que a minha alma faz dentro desse cérebro?
Foi aí que eu percebi.
Que eu estava olhando pra mim na terceira pessoa. Como uma pessoa que observa um gato sendo atropelado.
Eu tive horror daquilo. De me imaginar naquela prisão de mim mesma.
Ei, sai de mim.
Eu queria me sair.
Não conseguia me olhar sabendo que eu me olhava.
E que o meu eu sabia que eu estava olhando.
Não foi um monólogo, foi uma conversa.
Era a vida conversando com a matéria.
Eu nunca consegui explicar isso pra ninguém. Mas os espelhos são o maior medo da minha infância.
Até agora, explicando isso por meio dessas palavras, não me parece como eu gostaria.
É um momento que não pode ser explicado apenas com o corpo.
Não há linguagem.
Não há nem coração para isso.
É como a rua.
Existe antes de tudo existir.
Isso que está em mim existe antes de eu nascer.
Não consigo chamar de alma. Me parece tão vago.
É como dizer eu te amo quando você ama. É tão pouco que não dá nem vontade de dizer. Se fica naquela tristeza incomunicável.
O que me vem agora eu não posso comunicar.
Eu não me comunico nunca.
A pessoa que lhe fala é a pessoa que me olha no espelho.
Não há expressão.
Desde aquele dia eu fiquei muda. Achando que era coisa de gente doente.
Mas mais do que isso: era o medo de não conseguir falar o que é.
E até agora eu só estou escrevendo o que não é.
Tento me pegar, mas estou sempre escapando do meu entendimento.
Aquele momento foi pra mim como o parto e a morte ao mesmo tempo. Não conseguia me mexer. Tinha enfim descoberto que a própria prisão era a do corpo.
Não queria que soasse tão mal assim.
Mas eu me senti paralisada pela descoberta.
Era uma coisa tão minha que eu só consigo falar disso agora, anos depois.
Eu sentia que tentando explicar doeria mais.
E agora está doendo porque não sei dizer.
Eu ficava imaginando todas as minhas veias e todo o meu sangue e todas as minhas cavidades. Me sentia incapaz de lidar com aquilo.
Foi uma diferença de alguns instantes apenas. Eu fiquei me olhando por alguns instantes, e esse sentimento não era de palavras como agora parece ser.
Esse sentimento não era de nada.
Era um susto que eu não conseguia concretizar em pensamentos.
Eu me era estranha a mim.
Me achava alheia.
Não que eu quisesse ser outra pessoa.
Eu não queria ter uma forma.
Era mais do que não querer me ser, era não querer ser.
Doía demais olhar para aquele rosto. Eu não me sentia ali. Me senti observando um ser sem vida.
Foi aí que a vida aconteceu. Quando eu me olhei sem vida.
Eu me olhei fora do meu corpo.
Eu estava fora de mim.
Eu me perdi por alguns instantes e achei que não fosse nunca mais voltar.
Ao mesmo tempo me estava tão dentro que foi quase como se eu fosse total uma parte do meu fígado, do meu estômago.
Olha, está sendo difícil para mim.
Estou contando o meu maior medo e mesmo assim ele não sai de dentro.
Isso que eu senti veio antes de eu saber como é que o meu corpo o sente.
O meu medo é tão grande que ele não se encaixa na linguagem.
Como é que se diz que dá medo existir?
Assim, eu tenho medo de existir. Não é nem ódio. Não é tristeza. É medo.
Eu não consegui mais me olhar direito.
Por uns anos odiava me ver em fotos.
Não me reconhecia.
Não me encaixava na matéria.
Quisera eu nunca ter visto o meu reflexo.
Era muito pavoroso poder encostar em mim, poder sentir que havia sangue pulsando em mim. Como eu estava ali se eu estava morta?
Como meu coração batia se eu me olhava fora do meu corpo?
Eu fiquei alheia de mim.
Nunca mais quis conversar comigo de novo.
Até hoje. Até agora.
Em que olhei a rua e pensei nisso.
Pensei que ninguém se reconhece na rua.
Mas a rua é o espelho de todos.
A rua é toda a existência.
Lá a gente se vê.
Lá nos vemos uns aos outros.
Lá está toda a misericórdia e a falta de paz.
Lá estão os meus casos felizes e as minhas tristezas.
No meu espelho está a minha miséria.
Este mundo é a minha jaula.
O meu corpo é a cela maior, e na rua eu saio para tomar banho de sol.
Estou sempre tão presa em mim.
É como se eu não fosse capaz de me libertar.
Como se dar um passo fosse uma dor enorme porque seu corpo te acompanha.
E você se vê tão de fora.
Como excluído de uma mesa de bar.
É mais. Mas é tudo que sou capaz de dizer agora.
Eu saí daquele banheiro e fiquei olhando pra cara da minha amiga. Como se diz pra alguém que ama a gente que a gente se foi? Como dizer pra quem a gente ama que a gente se quer ir?
A vida é um tipo de morte.
Foi quando eu descobri que eu estava morta no meu corpo que eu comecei a estar pronta para a vida.
É como dormir um sono sem sonhos. Isto é viver.
É olhar para dentro de si e reparar que o que existe dentro de você aconteceu antes de você nascer.
É respirar em um parque e sentir que você é parte do local.
Se não houvesse o peso do corpo eu não teria tanto medo assim.
Ainda é difícil me olhar por muito tempo. Me acho diferente do que sou.
Completamente alheia.
Viver é como meditar para sempre.
É se olhar de dentro pra dentro.
Descobrir que todas as coisas que te formam são aquelas que também não te formam.
Que tudo existe antes de tudo existir.
Que nunca teve um começo e nunca terá um fim.
Acredito que a vida seja para sempre e a morte seja temporária.
A morte é de cada um.
A minha foi o me olhar no espelho com medo da existência.
Mas foi morrendo que eu comecei a entender que aquilo era a Vida.
A Vida se fazia em mim.
Minha vida começou quando eu tinha 12 anos.
Pelo menos foi quando eu tomei consciência dela.
Tudo só passa a existir de fato quando a gente se percebe enquanto existência.
Isso vale para todas as outras coisas.
A morte é de cada um.
A Vida também.
A rua vem antes.
É delas que surgem o meu medo do que eu possa ver e do que posso não ver. Ando pelas ruas buscando encontrar o que existe.
As ruas estão apinhadas e vazias. Elas gritam também quando estão vazias.
A rua é a terra, são as histórias, as pessoas, os lares, as matanças e os sequestros.
A rua existe antes daquilo que existe.
Eu vou pra lá porque uma parte de mim existe antes do existir.
Quando eu era pequena e me olhava no espelho não conseguia entender o que vinha por trás do meu rosto e das minhas ligações cerebrais. Não conseguia entender o que era o mundo material.
Eu sempre fui de dentro pra dentro.
Às vezes não gosto de olhar. Me dá medo me olhar e ver que sou uma figura estranha que enxergo a mim. Como é uma pessoa ver a ela mesma? Eu era muito nova pra pensar essas coisas.
Acho que foi o divisor de águas da minha infância. A passagem pro sofrimento.
Eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo.
Achava o corpo humano um espaço muito limitado para se ficar.
Achei aprisionante todas as minhas partes. Foi aí que a vida começou a acontecer para mim.
Quando eu me vi no espelho da casa de uma amiga e não conseguia acreditar que o meu cérebro era tudo que eu era. Era inconcebível.
Eu não me sentia com 12 anos de idade, não me sentia com aquele corpo, rosto, com meus braços e dentes. Eu me via tão diferente dentro de mim. Foi como se eu tivesse morrido. Eu morri quando a vida começou a acontecer.
Nunca achei que o meu corpo era um lugar meu. Não acho que ninguém mora dentro do seu corpo.
Eu não tinha mais medo de nada como tinha medo daquele mistério. Eu olhava pra mim e não me via.
Eu tive consciência de mim.
Eu me olhei e fiquei alheia de mim mesma.
Foi quando eu pensei: o que esse cérebro faz dentro da minha alma?
O que a minha alma faz dentro desse cérebro?
Foi aí que eu percebi.
Que eu estava olhando pra mim na terceira pessoa. Como uma pessoa que observa um gato sendo atropelado.
Eu tive horror daquilo. De me imaginar naquela prisão de mim mesma.
Ei, sai de mim.
Eu queria me sair.
Não conseguia me olhar sabendo que eu me olhava.
E que o meu eu sabia que eu estava olhando.
Não foi um monólogo, foi uma conversa.
Era a vida conversando com a matéria.
Eu nunca consegui explicar isso pra ninguém. Mas os espelhos são o maior medo da minha infância.
Até agora, explicando isso por meio dessas palavras, não me parece como eu gostaria.
É um momento que não pode ser explicado apenas com o corpo.
Não há linguagem.
Não há nem coração para isso.
É como a rua.
Existe antes de tudo existir.
Isso que está em mim existe antes de eu nascer.
Não consigo chamar de alma. Me parece tão vago.
É como dizer eu te amo quando você ama. É tão pouco que não dá nem vontade de dizer. Se fica naquela tristeza incomunicável.
O que me vem agora eu não posso comunicar.
Eu não me comunico nunca.
A pessoa que lhe fala é a pessoa que me olha no espelho.
Não há expressão.
Desde aquele dia eu fiquei muda. Achando que era coisa de gente doente.
Mas mais do que isso: era o medo de não conseguir falar o que é.
E até agora eu só estou escrevendo o que não é.
Tento me pegar, mas estou sempre escapando do meu entendimento.
Aquele momento foi pra mim como o parto e a morte ao mesmo tempo. Não conseguia me mexer. Tinha enfim descoberto que a própria prisão era a do corpo.
Não queria que soasse tão mal assim.
Mas eu me senti paralisada pela descoberta.
Era uma coisa tão minha que eu só consigo falar disso agora, anos depois.
Eu sentia que tentando explicar doeria mais.
E agora está doendo porque não sei dizer.
Eu ficava imaginando todas as minhas veias e todo o meu sangue e todas as minhas cavidades. Me sentia incapaz de lidar com aquilo.
Foi uma diferença de alguns instantes apenas. Eu fiquei me olhando por alguns instantes, e esse sentimento não era de palavras como agora parece ser.
Esse sentimento não era de nada.
Era um susto que eu não conseguia concretizar em pensamentos.
Eu me era estranha a mim.
Me achava alheia.
Não que eu quisesse ser outra pessoa.
Eu não queria ter uma forma.
Era mais do que não querer me ser, era não querer ser.
Doía demais olhar para aquele rosto. Eu não me sentia ali. Me senti observando um ser sem vida.
Foi aí que a vida aconteceu. Quando eu me olhei sem vida.
Eu me olhei fora do meu corpo.
Eu estava fora de mim.
Eu me perdi por alguns instantes e achei que não fosse nunca mais voltar.
Ao mesmo tempo me estava tão dentro que foi quase como se eu fosse total uma parte do meu fígado, do meu estômago.
Olha, está sendo difícil para mim.
Estou contando o meu maior medo e mesmo assim ele não sai de dentro.
Isso que eu senti veio antes de eu saber como é que o meu corpo o sente.
O meu medo é tão grande que ele não se encaixa na linguagem.
Como é que se diz que dá medo existir?
Assim, eu tenho medo de existir. Não é nem ódio. Não é tristeza. É medo.
Eu não consegui mais me olhar direito.
Por uns anos odiava me ver em fotos.
Não me reconhecia.
Não me encaixava na matéria.
Quisera eu nunca ter visto o meu reflexo.
Era muito pavoroso poder encostar em mim, poder sentir que havia sangue pulsando em mim. Como eu estava ali se eu estava morta?
Como meu coração batia se eu me olhava fora do meu corpo?
Eu fiquei alheia de mim.
Nunca mais quis conversar comigo de novo.
Até hoje. Até agora.
Em que olhei a rua e pensei nisso.
Pensei que ninguém se reconhece na rua.
Mas a rua é o espelho de todos.
A rua é toda a existência.
Lá a gente se vê.
Lá nos vemos uns aos outros.
Lá está toda a misericórdia e a falta de paz.
Lá estão os meus casos felizes e as minhas tristezas.
No meu espelho está a minha miséria.
Este mundo é a minha jaula.
O meu corpo é a cela maior, e na rua eu saio para tomar banho de sol.
Estou sempre tão presa em mim.
É como se eu não fosse capaz de me libertar.
Como se dar um passo fosse uma dor enorme porque seu corpo te acompanha.
E você se vê tão de fora.
Como excluído de uma mesa de bar.
É mais. Mas é tudo que sou capaz de dizer agora.
Eu saí daquele banheiro e fiquei olhando pra cara da minha amiga. Como se diz pra alguém que ama a gente que a gente se foi? Como dizer pra quem a gente ama que a gente se quer ir?
A vida é um tipo de morte.
Foi quando eu descobri que eu estava morta no meu corpo que eu comecei a estar pronta para a vida.
É como dormir um sono sem sonhos. Isto é viver.
É olhar para dentro de si e reparar que o que existe dentro de você aconteceu antes de você nascer.
É respirar em um parque e sentir que você é parte do local.
Se não houvesse o peso do corpo eu não teria tanto medo assim.
Ainda é difícil me olhar por muito tempo. Me acho diferente do que sou.
Completamente alheia.
Viver é como meditar para sempre.
É se olhar de dentro pra dentro.
Descobrir que todas as coisas que te formam são aquelas que também não te formam.
Que tudo existe antes de tudo existir.
Que nunca teve um começo e nunca terá um fim.
Acredito que a vida seja para sempre e a morte seja temporária.
A morte é de cada um.
A minha foi o me olhar no espelho com medo da existência.
Mas foi morrendo que eu comecei a entender que aquilo era a Vida.
A Vida se fazia em mim.
Minha vida começou quando eu tinha 12 anos.
Pelo menos foi quando eu tomei consciência dela.
Tudo só passa a existir de fato quando a gente se percebe enquanto existência.
Isso vale para todas as outras coisas.
A morte é de cada um.
A Vida também.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
Para ninguém
Você sempre desconfiou do meu jeito. Achava que eu tinha mania de inventar paixões para escrever. Cá está a verdade: você esteve sempre errado. Pelo menos não totalmente certo.
Minha alma não funciona sem um pouco de vida que os amores passageiros me proporcionam.
Não chega a ser um capricho, mas eu preciso de alguma coisa para dizer, e se alguma história precisa vir de dentro do meu coração para caber aqui, não significa que é irreal: pelo contrário, é sempre mais verdadeiro.
Se de um olhar tiro uma frase, de umas mãos tiro toques, de um sorriso faço o mundo e de umas poucas palavras faço uma avalanche de dizeres, é porque minha alma pede.
Meu espírito é sedento de calor humano.
Por isso não me estranhe.
Não me olhe dessa maneira porque me fere. Tudo me fere.
Também não é porque te olhei no escuro e tive vontade de que todas as outras pessoas sumissem e que simplesmente largassem esse mundo e me deixassem em paz com você que eu te amo.
Você não entende que a minha vida é mais gostosa quando eu finjo que sim.
Escrever é tirar uma foto.
E você simplesmente estava uma graça de olhos fechados. Parecia um garoto sem medo de viver.
Eu te adorava. Não estou te inventando como você costumava dizer.
Era só isso, eu adorava você, adorava suas mãos e o jeito que você me tocava, a sua maneira de pegar nos meus cabelos, os seus olhos astutos e vadios.
Seus lábios eram cachoeiras de milagres no meio de uma floresta infecunda e vazia.
Eu sentia que você podia me salvar desse silêncio.
Qualquer um pode me salvar sabendo me olhar do jeito certo. Eu só preciso de um amor instantâneo.
Mas você foi mais: eu não queria ir embora, queria ficar de verdade. Acho que sim. Pelo menos foi o que eu senti na hora.
Acho que agora não sinto muita coisa. O meu texto é a única coisa que existe no momento em que existe.
Não me leve a mal, estou muito cansada a ponto de te inventar. Você nem é tão especial.
Eu não ando dormindo bem.
Sinto falta de uma mão no meu rosto que me afaga e em silêncio me diz verdades rápidas.
Eu só queria que fosse mais frequente essa sensação de me doar.
Acho que eu me doo tanto a uns poucos segundos que volto sempre vazia e com um buraco no estômago e no peito ao chegar em casa. Eu ando me destroçando por causa de nada.
Então despejo tudo aqui. Parece que é a única coisa que tenho. Talvez seja. Essas palavras que procuram alguém para voltar. Alguém que talvez nunca tenha vindo.
Estou sendo chata. Mas é que, se você precisar de alguém pra te inventar e botar a mão no teu rosto enquanto você dorme: eu vou deixar você botar as mãos no meu. E nas minhas costas. E nas minhas pernas. E nos meus ombros.
Um dia eu quis falar desse seu calor. Mas não precisava ser dita assim uma sensação tão bonita. Tive medo de estragar e de acabar tão rápido antes de eu dizer.
Mas, juro, se você quiser me tocar de novo, só pra que eu possa ter a inocência de dizer que aconteceu alguma coisa entre nós. Eu vou deixar.
Eu vou.
Vai que você acredita que sim.
Vai que você aproveita desses meus sonhares inúteis.
Minha alma não funciona sem um pouco de vida que os amores passageiros me proporcionam.
Não chega a ser um capricho, mas eu preciso de alguma coisa para dizer, e se alguma história precisa vir de dentro do meu coração para caber aqui, não significa que é irreal: pelo contrário, é sempre mais verdadeiro.
Se de um olhar tiro uma frase, de umas mãos tiro toques, de um sorriso faço o mundo e de umas poucas palavras faço uma avalanche de dizeres, é porque minha alma pede.
Meu espírito é sedento de calor humano.
Por isso não me estranhe.
Não me olhe dessa maneira porque me fere. Tudo me fere.
Também não é porque te olhei no escuro e tive vontade de que todas as outras pessoas sumissem e que simplesmente largassem esse mundo e me deixassem em paz com você que eu te amo.
Você não entende que a minha vida é mais gostosa quando eu finjo que sim.
Escrever é tirar uma foto.
E você simplesmente estava uma graça de olhos fechados. Parecia um garoto sem medo de viver.
Eu te adorava. Não estou te inventando como você costumava dizer.
Era só isso, eu adorava você, adorava suas mãos e o jeito que você me tocava, a sua maneira de pegar nos meus cabelos, os seus olhos astutos e vadios.
Seus lábios eram cachoeiras de milagres no meio de uma floresta infecunda e vazia.
Eu sentia que você podia me salvar desse silêncio.
Qualquer um pode me salvar sabendo me olhar do jeito certo. Eu só preciso de um amor instantâneo.
Mas você foi mais: eu não queria ir embora, queria ficar de verdade. Acho que sim. Pelo menos foi o que eu senti na hora.
Acho que agora não sinto muita coisa. O meu texto é a única coisa que existe no momento em que existe.
Não me leve a mal, estou muito cansada a ponto de te inventar. Você nem é tão especial.
Eu não ando dormindo bem.
Sinto falta de uma mão no meu rosto que me afaga e em silêncio me diz verdades rápidas.
Eu só queria que fosse mais frequente essa sensação de me doar.
Acho que eu me doo tanto a uns poucos segundos que volto sempre vazia e com um buraco no estômago e no peito ao chegar em casa. Eu ando me destroçando por causa de nada.
Então despejo tudo aqui. Parece que é a única coisa que tenho. Talvez seja. Essas palavras que procuram alguém para voltar. Alguém que talvez nunca tenha vindo.
Estou sendo chata. Mas é que, se você precisar de alguém pra te inventar e botar a mão no teu rosto enquanto você dorme: eu vou deixar você botar as mãos no meu. E nas minhas costas. E nas minhas pernas. E nos meus ombros.
Um dia eu quis falar desse seu calor. Mas não precisava ser dita assim uma sensação tão bonita. Tive medo de estragar e de acabar tão rápido antes de eu dizer.
Mas, juro, se você quiser me tocar de novo, só pra que eu possa ter a inocência de dizer que aconteceu alguma coisa entre nós. Eu vou deixar.
Eu vou.
Vai que você acredita que sim.
Vai que você aproveita desses meus sonhares inúteis.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Puta que pariu!
Não estou alterada, nem de TPM, nem louca, nem com fogo no rabo,
eu estou completamente TRISTE por ver uma juventude tão perdida que continua
reproduzindo e reproduzindo e reproduzindo os mesmos preconceitos de séculos
atrás.
Eu quero que todos os homens desse mundo que acham que o lugar de uma mulher é unicamente na cozinha se afoguem na pia, na privada e no ralo juntamente a suas merdas de opiniões.
Entendam, de uma vez por todas: rir de uma piada machista, sexista, que contenha preconceito de qualquer tipo, não te faz uma pessoa melhor do que o que FEZ a piada. Principalmente em uma rede social, se deliciar com a desgraça do outro, com o sofrimento alheio é VERGONHOSO. É disseminar uma ideia tosca, um estereótipo mal-formulado. Ninguém precisa da merda da sua opinião se ela não ajuda em nada a luta de milhões de seres humanos (homens, também!) que passam dias tentando desconstruir o patriarcado e o sexismo, seja por meio de textos, blogs, por meio do jornalismo ou mesmo indo as ruas participar das passeatas.
Pense bem: você gostaria de ser MENOSPREZADO pelo seu gênero? Você gostaria de passar na rua e ser só uma BUNDA? Você gostaria do fato das suas idéias não valerem nada frente a isso? Gostaria de ir a uma Bienal de Livros comprar livros para se tornar um profissional mais competente, e assim que pisa no local, alguém passa a mão na sua bunda? Como se você fosse um mero objeto, como se você nem estivesse ali? Certamente que não.
Você gostaria de lutar por um mundo melhor, em que as pessoas SE RESPEITEM, em que haja limites para o HUMOR, e ver pessoas se deliciando com o menosprezo alheio?
É o seguinte: para cada piada de mulher que você ri, para cada piada de homossexual, para cada piada de negro, enquanto você está rindo do outro lado da tela provavelmente há uma pessoa SOFRENDO HORRORES COM FALTA DE ESPERANÇA NO MUNDO.
Em que mulheres não deveriam ocupar algum cargo porque deveriam estender roupa num varal. Quem vocês acham que são para brincarem com o sentimento dos outros?
Quem vocês acham que são para brincarem com a luta dos outros?
Isso é sério. Isso é falta de respeito. Isso não é liberdade de expressão caros seres humanos, ISSO É DESRESPEITO, e eu acredito, com toda a minha fé, que Deus está vendo essas barbaridades.
A vida está aí: cabe a cada um decidir o que fará dela. Siga em frente rindo das pessoas, compartilhando essas brincadeiras bizarras, achando que o mundo é um algodão doce cor-de-rosa em que todas as pessoas são felizes.
Para vocês é fácil, afinal de contas não são vocês que são assediados na rua, que tem medo de sair de casa. Não são vocês que cresceram ouvindo que “mulher não pode isso, que mulher não pode aquilo, que mulher tem que ser santa e uma boa esposa”.
Na boa, os meus sonhos são: ser uma profissional competente, estudar para tanto. É uma tristeza se esforçar e ler constantemente que lugar de mulher é na cozinha.
E sabe qual é o lugar de vocês? O lugar de vocês é na puta que os pariu.
Para vocês é apenas uma brincadeira. Ok, certo. Mas o meu coração dói. O meu coração dói de verdade.
Penso em todas as mulheres que sofrem constantemente para conquistar direitos para si mesmas, e para todas as outras. As feministas querem os direitos para todas, suas moças machistas!
É muito fácil se acomodar quando você não precisa pegar o transporte público e caminhar na rua sozinha. Quando você não é uma transexual e não é agredida verbalmente e fisicamente constantemente. Realmente, é muito fácil. Não se esqueça que um dia, quando você estiver passando despercebida, um homem poderá passar a mão em você.
E o que você vai dizer? Continuará com esse discurso de “homem é assim mesmo?”
Homens, no dia que vocês tiverem uma filha e ela sofrer assédio ou for estuprada, o que você vai fazer? Proibi-la de sair de casa? Mandá-la se vestir como santa?
Nada disso adiantará. Porque nesse momento o veneno já terá se espalhado por todo o mundo.
E adivinha quem os espalhou por aí?
Foram vocês mesmos.
Essa corja.
Estou envergonhada.
Eu quero que todos os homens desse mundo que acham que o lugar de uma mulher é unicamente na cozinha se afoguem na pia, na privada e no ralo juntamente a suas merdas de opiniões.
Entendam, de uma vez por todas: rir de uma piada machista, sexista, que contenha preconceito de qualquer tipo, não te faz uma pessoa melhor do que o que FEZ a piada. Principalmente em uma rede social, se deliciar com a desgraça do outro, com o sofrimento alheio é VERGONHOSO. É disseminar uma ideia tosca, um estereótipo mal-formulado. Ninguém precisa da merda da sua opinião se ela não ajuda em nada a luta de milhões de seres humanos (homens, também!) que passam dias tentando desconstruir o patriarcado e o sexismo, seja por meio de textos, blogs, por meio do jornalismo ou mesmo indo as ruas participar das passeatas.
Pense bem: você gostaria de ser MENOSPREZADO pelo seu gênero? Você gostaria de passar na rua e ser só uma BUNDA? Você gostaria do fato das suas idéias não valerem nada frente a isso? Gostaria de ir a uma Bienal de Livros comprar livros para se tornar um profissional mais competente, e assim que pisa no local, alguém passa a mão na sua bunda? Como se você fosse um mero objeto, como se você nem estivesse ali? Certamente que não.
Você gostaria de lutar por um mundo melhor, em que as pessoas SE RESPEITEM, em que haja limites para o HUMOR, e ver pessoas se deliciando com o menosprezo alheio?
É o seguinte: para cada piada de mulher que você ri, para cada piada de homossexual, para cada piada de negro, enquanto você está rindo do outro lado da tela provavelmente há uma pessoa SOFRENDO HORRORES COM FALTA DE ESPERANÇA NO MUNDO.
Em que mulheres não deveriam ocupar algum cargo porque deveriam estender roupa num varal. Quem vocês acham que são para brincarem com o sentimento dos outros?
Quem vocês acham que são para brincarem com a luta dos outros?
Isso é sério. Isso é falta de respeito. Isso não é liberdade de expressão caros seres humanos, ISSO É DESRESPEITO, e eu acredito, com toda a minha fé, que Deus está vendo essas barbaridades.
A vida está aí: cabe a cada um decidir o que fará dela. Siga em frente rindo das pessoas, compartilhando essas brincadeiras bizarras, achando que o mundo é um algodão doce cor-de-rosa em que todas as pessoas são felizes.
Para vocês é fácil, afinal de contas não são vocês que são assediados na rua, que tem medo de sair de casa. Não são vocês que cresceram ouvindo que “mulher não pode isso, que mulher não pode aquilo, que mulher tem que ser santa e uma boa esposa”.
Na boa, os meus sonhos são: ser uma profissional competente, estudar para tanto. É uma tristeza se esforçar e ler constantemente que lugar de mulher é na cozinha.
E sabe qual é o lugar de vocês? O lugar de vocês é na puta que os pariu.
Para vocês é apenas uma brincadeira. Ok, certo. Mas o meu coração dói. O meu coração dói de verdade.
Penso em todas as mulheres que sofrem constantemente para conquistar direitos para si mesmas, e para todas as outras. As feministas querem os direitos para todas, suas moças machistas!
É muito fácil se acomodar quando você não precisa pegar o transporte público e caminhar na rua sozinha. Quando você não é uma transexual e não é agredida verbalmente e fisicamente constantemente. Realmente, é muito fácil. Não se esqueça que um dia, quando você estiver passando despercebida, um homem poderá passar a mão em você.
E o que você vai dizer? Continuará com esse discurso de “homem é assim mesmo?”
Homens, no dia que vocês tiverem uma filha e ela sofrer assédio ou for estuprada, o que você vai fazer? Proibi-la de sair de casa? Mandá-la se vestir como santa?
Nada disso adiantará. Porque nesse momento o veneno já terá se espalhado por todo o mundo.
E adivinha quem os espalhou por aí?
Foram vocês mesmos.
Essa corja.
Estou envergonhada.
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Algumas palavras inúteis à garota que jamais conheci
Sentei em seu colo num instante abrupto
como outro
qualquer.
Enrosquei suas pernas em minhas pernas
quando lhe conheci
sem dizer oi.
Ela tinha o coração um pouco
machucado e
um lindo rosto.
Eu a beijei. nós fumamos e
dançamos.
Mas qualquer um poderia dizer qualquer
coisa
sobre isto.
Quando deito em minha cama ela faz um
barulho quase que de
um lamento triste.
Um murmúrio baixo indicativo de que
essa é apenas
mais uma noite como
todas as outras.
Em que se está só e nem um pouco triste
e nem um pouco feliz.
Minha cama range e eu penso em todos
os barulhos da minha vida que
viraram silêncio.
Como quase todos os momentos de quase todas
as pessoas.
Ainda assim estou absolutamente só e lembrando
dos suspiros daquela
garota
que deixou um quê de relâmpado que na hora
não vi
[mas que hoje continua ardendo nas minhas vistas como se
nunca tivesse passado.
como outro
qualquer.
Enrosquei suas pernas em minhas pernas
quando lhe conheci
sem dizer oi.
Ela tinha o coração um pouco
machucado e
um lindo rosto.
Eu a beijei. nós fumamos e
dançamos.
Mas qualquer um poderia dizer qualquer
coisa
sobre isto.
Quando deito em minha cama ela faz um
barulho quase que de
um lamento triste.
Um murmúrio baixo indicativo de que
essa é apenas
mais uma noite como
todas as outras.
Em que se está só e nem um pouco triste
e nem um pouco feliz.
Minha cama range e eu penso em todos
os barulhos da minha vida que
viraram silêncio.
Como quase todos os momentos de quase todas
as pessoas.
Ainda assim estou absolutamente só e lembrando
dos suspiros daquela
garota
que deixou um quê de relâmpado que na hora
não vi
[mas que hoje continua ardendo nas minhas vistas como se
nunca tivesse passado.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Viva
O meu fantasma possuía olhos muito pretos e muito fundos,
borrados
[de rímel
e deslizava pela sala com seu cabelo desgrenhado e seus pés meio imundos e
[absolutamente lindos
Minha assombração tinha um quê de miserável e de atordoada por suas olheiras bem
marcadas e bem verdes.
Quase não tinha cor: era branca de um lamento triste, de um impulso orgástico.
Sua falta de melanina acabava comigo. eu ficava sem saber como olhá-la sem ao menos
[fechar os olhos por um instante.
Tigresa de entranhas muito vermelhas e muito vivas (eu implorava!)
por um beijo teu.
não era amor; era paixão. ardente viva como um fósforo queimando eterno.
[de rímel
e deslizava pela sala com seu cabelo desgrenhado e seus pés meio imundos e
[absolutamente lindos
Minha assombração tinha um quê de miserável e de atordoada por suas olheiras bem
marcadas e bem verdes.
Quase não tinha cor: era branca de um lamento triste, de um impulso orgástico.
Sua falta de melanina acabava comigo. eu ficava sem saber como olhá-la sem ao menos
[fechar os olhos por um instante.
Tigresa de entranhas muito vermelhas e muito vivas (eu implorava!)
por um beijo teu.
não era amor; era paixão. ardente viva como um fósforo queimando eterno.
Sonho ou pesadelo, não lhe sei, não lhe quero saber. o seu
fascínio era além de
[uma dicotomia
era a verdade própria, sem raciocínio.
[uma dicotomia
era a verdade própria, sem raciocínio.
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Urgência
Agora estou demolindo os fortes que outrora construí
com minha vastidão de suores, de sangue e de pedras,
que retirei com as próprias mãos dos meus rins.
Eu me doo toda para me proteger.
É incrível, é milenar, é bonito. Mas dói. Dor de demolir a dor
porque me demolir significa colocar as pedras de volta
com as próprias mãos minhas.
E abrir um buraco que há muito estava cicatrizado.
Agora estou com as pernas bambas tentando fugir do meu esconderijo.
Não como se um lobo estivesse à espreita para me comer,
mas de um jeito tal que eu esteja à espreita para comer o lobo.
Tenho medo. Não porque sou pequenina,
mas medo do que minhas próprias entranhas podem fazer.
Comigo e com o lobo.
Eu não tenho medo de morrer. Eu tenho medo de comer o lobo
e comer o forte e comer a minha própria dor.
De acabar comigo.
Eu não tenho medo de morrer; tenho medo de matar.
Matar o que construí com tanta vitória e tanto zelo e tanta
autocomiseração.
Medo não do mundo, que já me encarou trocentas vezes,
mas de mim, que dessa vez olharei o mundo de frente.
Medo de não ter medo e de abrir os braços em tamanha plenitude
que possa doer.
Porque é tamanho o barulho e as visões e o mundo
que meu coração baterá mais forte.
E as pedras sacudirão nas minhas vísceras como se eu nunca
as tivesse retirado de lá.
Sorrirei- sem piedade de mim.
E sem piedade do lobo que irei comer.
Mas com profunda e total piedade
do suor que deixei nos meus pilares de dor,
junto a uma outra pessoa que nunca achou que fosse existir alguma coisa a mais
para mim.
Sou o meu lobo. E me comerei.
Até porque meu maior medo não é da dor, a dor me facilitou a fuga.
O que me apavora é que terei de matar para viver.
Eu me matarei.
Com enxadas no forte, escavadeiras e um barulho insuportável: eu posso ouvir.
Com minhas duas mãos aplaudirei, e com meus joelhos dobrados estarei ajoelhada,
torcendo para Deus me perdoar.
Preciso viver.
E se para isso eu precise matar: mato.
Ressurgirei do outro lado.
É de uma determinação tão imensa o que agora sinto que quase dói.
De tão perto que está a luz.
E nem sei se a quero. Meu coração dói mas ao menos agora o ouço batendo.
A vida pulsa em mim, é assustador.
Há muito sangue em mim, sinto o cheiro.
De uma dor tão real que começo a me sentir até um pouco melhor com o que farei,
Porque antes a dor estava e eu não.
Agora matei o não-eu para eu e minha dor sermos duas.
Não sei se chego a uma alegria sem dor, meus estados de espírito insistem em me perturbar.
Para viver terei que matar. E depois não sei o que resta.
Agora é só uma sensação.
É de um jeito que nem estou aqui, mas as pedras continuam latejando
como se eu precisasse abrir os olhos. É uma necessidade.
Preciso matar, embora meus olhos se fechem involuntariamente.
Estou triste de uma tristeza profunda porque não sei matar apesar de querer.
Não conseguirei atravessar o forte. É alto demais, quase como chegar ao céu.
E fui eu que o construí.
Acho que o antes de mim sabia que eu precisaria fugir.
É de uma urgência.
E me abandonou aqui na minha solidão.
Não poderei matá-la: ela, meu outro-eu, minha antítese.
Ela já pulou, o que faço, como saio?
Não há ninguém para me dar a mão.
Eu e eu nos detestamos. Acho que terei que me retirar desta briga.
Dormirei. Talvez amanhã minha outra eu renasça aqui no cativeiro que construiu,
e nem imagine que amanhã também estarei. Ou talvez sim.
Ela é inerte porém esperta.
Não tem medo de morrer, mas morre sempre.
Eu nunca morro mas preciso matar.
Eu a devoro desejando morrer.
Necessitando viver.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Dentro
Em um dia de verão (não importam as estações, para mim sempre quando está um calor tão grande que nem dormir consigo, é verão). Bom, em uma noite de verão, estava eu deitada no assoalho de madeira da sala, desejando um pouco de frescor. Que não saía das janelas nem de dentro do meu peito, essa velha alma minha que já cansou dos seus constrangimentos. Só um bafo quente, uma estufa, atmosfera que faz o corpo inteiro grudar e eu nem me aguento de tão perto de mim que estou. E de mim não posso sair.
Mas, bem, eis que nessa noite quente estava eu olhando pela janela da sala e vejo um vulto preto. Não, não era espírito, era só- ou muito- a minha cachorrinha olhando fixamente para o portão de casa, esperando a minha irmã chegar para poder dormir em paz. Mesmo grudada no chão e não conseguindo pensar em nada além do fato de que essa quentura me deixa mais preguiçosa e inquieta, eu me deti naquela cena. E senti que O Deus, não o Deus que mora nas nuvens nos céus, mas o Deus do meu Mundo, tinha finalmente me mandado um pouco de frescor, de vitalidade e de juventude. Juventude e vida porque o amor é sempre jovem e sempre vivo, e fresco pois sempre esfria a alma quando o corpo recebe o inferno. E porque sempre, invariavelmente, até a sua morte, a minha cachorrinha ficaria ali, olhando pela janela até a minha irmã voltar. Porque mesmo fechando os olhinhos de tanto sono e de tanto calor, ela ainda espera, e o amor espera, nesses dias de verão e em qualquer outro, um pouco de ar fresco, vivo, ar em movimento.
Porque quando olhei nos olhos pretos e fundos desse serzinho, eu vi meu espírito refletido. Acredito, portanto, ou mesmo sem verossimilhança alguma, que o amor nada mais é do que uma junção de naturezas que se aguardam. A alma nada mais é do que a junção de naturezas distintas, todas postas em um corpo só, em um espírito que em toda a sua egocentricidade se divide. O Deus do meu Mundo nos fez tudo, mas nós nos dividimos para não ter medo de viver o Todo. E se o mundo é essa junção de almas e de naturezas, eu nem sentia mais medo nenhum. Nenhum medo de ser engolida pelo mundo porque ele me guarda. E se ele me guarda, eu não posso morrer porque o tal universo cheio das coisas viraria um universo sem mim, e, portanto, ele não pode me engolir porque já estou dentro dele. O máximo que poderia acontecer era ele me cuspir para fora, mas aí tanto faz porque ele perde um músculo, um fragmento minúsculo mas que poderia distorcê-lo. O mundo é um espírito Maior narcisista, que guarda vários outros espíritos narcisistas, e dentro desse mundo que conhecemos existe um submundo que se chama amor, e o amor não é o engavetamento das almas como o mundo é, o amor é o aguardo de duas presenças. Quando duas naturezas se unem e festejam juntas o nascimento de uma outra repartição do mundo. É o amor esse aguardo na janela morrendo de sono num puta calor que tira o mundo do lugar. O mundo só se move porque as almas amantes saem do mundo e a ele retornam. O amor é a força movedora, Aristóteles, esse era o Motor Imóvel. Ou o calor finalmente me tirou as rédeas da sanidade mental.
Eu dormi no chão aquela noite, pensando nessas coisas. Quando acordei a minha irmã já tinha chegado, e as duas, ela e a minha cachorra, estavam dormindo. O mundo havia retornado aos seus eixos. E eu não me cansava de olhar.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
É de lágrima
Eu poderia apenas estar escrevendo uma crônica, mais uma qualquer, nesse véspera de feriado em que eu tive um tempinho para pensar. Poderia ser apenas eu, mais uma vez, entediada, mas não. Essas palavras são mais do que isso. Ontem eu ouvi de uma das pessoas mais especiais da minha vida o comportamento mais preconceituoso proveniente da representante da Instituição onde eu estudo. Minha amiga é, antes de tudo, maravilhosa, sorridente, atenciosa, carinhosa, inteligente, ética, respeitosa. Bela, enfim. Belíssima. Digo isso porque eu poderia começar dizendo que ela é homossexual, entretanto ela é muitas coisas antes de ser homossexual. Antes de ser homossexual, ela é a pessoa que sorri pra mim e a minha alma se abre. Antes de ser homossexual, ela tem um sorriso lindo. Antes de ser homossexual, ela tem um nome, uma casa, um cachorro. Antes de ser homossexual, ela tem um caderninho em que faz uns desenhos super legais. Antes de ser homossexual, ela faz os outros se divertirem com a sua presença. Antes de ser homossexual, ela tem uns cachinhos muito lindos, super legais. Assim como o fulaninho da esquina, que antes de ser heterossexual, é muitas coisas antes.
Mais do que quem se ama, o importante não é saber amar? O importante não é ser educado com as pessoas, ser conveniente, deixar os outros em paz quando eles precisam de paz? Não? Então eu não entendo. Então eu não sei mesmo se eu vivo no Fantástico Mundo da Carolina ou se o mundo é tão horrível assim mesmo. Porque, no Fantástico Mundo da Carolina, o importante é saber amar, amar as pessoas, os bichos, as plantas, o ar, qualquer coisinha. Se eu beijo um macaco, uma menina, um menino ou um cavalo, o fundamental não é o fato de que eu não saio por aí ofendendo os outros, matando, estuprando? O fundamental não é aquela coisa boa que a gente sente antes de dormir porque tem alguém que nos ama? Você aí, heterossexual, irmã, freira, padre, papa, o que for, não acha que tem o direito de sentir o quentinho no coração porque tem alguém te dando a mão? Irmã, Deus não te dá a mão na hora que você vai dormir? Você não se sente feliz? Então por que a minha amiga que antes de ser homossexual é um ser humano maravilhoso não pode sentir uma coisa boa no peito porque alguém a ama? Por que o seu Deus não pode amá-la? Ela é diferente de você até que ponto? Que eu saiba os ossos são feitos de cálcio e o corpo é revestido de pele. Que eu saiba se enterram todos no cemitério, um ao lado do outro, homossexuais ao lado de heterossexuais ou ao lado de Irmãs, enfim, pessoas ao lado de pessoas. Não é assim? Então qual o problema? Qual é a dificuldade? Por que as pessoas, frente a minha indignação, vivem dizendo que “é assim mesmo, o preconceito, tudo vai ser sempre assim”? Por que é assim? Eu não concordo. No Fantástico Mundo da Carolina as pessoas tinham que ser mais felizes, que se amar mais, que desejar que todo mundo fosse amado.
Por que os outros se odeiam? Por que as pessoas passam mais tempo odiando umas às outras, buscando expulsá-las de escolas porque tem um cabelo verde, azul (e uns cachinhos lindos), porque namoram com uma menina e a abraçam em frente à faixada de uma escola católica? Por que o Deus de vocês é assim? Por que Deus tem que ser machista, sexista, preconceituoso, igual vocês? Deus não deveria ser um exemplo a ser seguido? É por isso que o mundo é desse jeito, porque as pessoas ficam inventando Deus pra odiar todo tipo de gente, então isso dá o direito das pessoas se odiarem umas às outras. Não, não, não mesmo. Se existe Deus, a todos ele ama porque somos todos feitos de ossos que são feitos de cálcio. Por que eu tenho que me conformar que um simples andar de mãos dadas seja tamanho insulto? Por que eu tenho que aceitar que Deus é assim? Deus não é assim, que droga! O DEUS DO FANTÁSTICO MUNDO DA CAROLINA A TODOS AMA, E DEVERIA SER ASSIM, SE DEUS É “HUMANO”, ENTÃO QUE VOCÊS FAÇAM DELE UM REFLEXO BOM DA HUMANIDADE!
Porque a minha amiga, antes de ser homossexual, é minha amiga. E porque antes da minha sexualidade eu sou gente, ela é gente, nós temos desejos, paixões, tristezas, necessidades. Eu não aceito que ela seja tratada como o vírus HIV nos anos 80. É ela quem coloca um sorriso no meu rosto, por que será que eu deveria me conformar com o Papa, o que for, tirando um sorriso do rosto dela?
Não é justo. E você aí do outro lado dessa tela pode até pensar “a vida não é justa”. Não, não é, mas deveria ser. Quando eu era criança eu sonhava com um mundo onde sempre fosse Natal. Onde todo mundo se amasse igual no Natal. E eu fazia cartinhas pro papai Noel pedindo presentinhos, mas hoje eu queria pedir, papai Noel, dê um pouco mais de sabedoria e tolerância para as pessoas. E para a minha amiga e todas as pessoas que, por infortúnio, diariamente são ofendidas, espancadas, humilhadas, um pouco de paz. Eu não sou mais criança mas eu ainda sonho com um mundo em que todo mundo se ame igual no Natal, todos os dias.
Essa escola não me representa, assim como tantas outras coisas não me representam. Irmã, pessoas conservadoras ou o que seja lá que vocês forem, eu espero, do fundo do meu coração, que o Deus de vocês deixe de existir, porque Ele entristece as pessoas.
O Deus do Fantástico Mundo da Carolina a todos ama. A todos respeita e de todos cuida.
O meu Deus te ama, Kai. E ele quer ver você rindo a toa.
sábado, 30 de agosto de 2014
As almas
Vejo nesse jardim almas felizes e meninas
com suas longas tranças e saias
esvoaçantes
Nesse raio de luz refletido no teu olho verde puro
observo o mundo e o mundo olha preguiçoso
pra mim
E vão elas, as crianças
felizes felizes radiantes sorridentes
rodeadas de paredes coloridas e
nascidas cinza de um ventre que não as quis
Ou que não pode querer ou que morreu antes
de esboçar um desejo.
Vejo as meninas neste quintal subindo nas árvores
catando mexericas
E as sinto doces como o sol poente no fim da
tarde resplandecente
de uma alegria martirizada tão carente
pura como um salto no escuro
Incoerente, mas em busca da beleza e do mais límpido
matiz do céu.
Como um raio de luz. Apenas um.
Ah! Lá se vão as meninas
enquanto as olho, saudosas,
estou indo embora do orfanato.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Infinito
No dia em que você foi embora pela terceira vez naquele mês, eu pisei forte no chão da minha casa como os soldados na Segunda Guerra mundial e caí na minha cama como um bicho muito pesado que não tem noção do seu peso. Foi aí que, cansada das pessoas, comecei a tagarelar, meio sem voz, com a minha cachorra. Até que, em dado momento, eu lembrei com pesar que ela já estava lá meio velhinha e logo ia me deixar também e fiquei com uma raiva tão grande do mundo que nem sei se existiria alguma coisa depois daquilo. Eu nem sei. Olhei novamente para ela e acho que a pobrezinha estava chorando. Ou talvez eu. Sei lá, me bateu uma baita pena de mim que estava limitada a minha condição de gente, e amando tanto um animal que logo ia morrer que pensei em me jogar em qualquer lugar só pra que ninguém olhasse mais pra mim ou nunca mais me deixasse olhando para as minhas próprias mãos em busca de alguma coisa que eu juro, estava ali, mas sumiu. Minha cabeça doía de cansaço e a minha cachorra continuava olhando pra mim. Foi aí que fiquei com raiva dela também porque me vem esse ódio enorme de todas as coisas que me limitam a um amor tão grande e tiram a razão do meu corpo como se retira um órgão. E a tirei do quarto. E fico olhando as minhas mãos me odiando também por amar assim, não com a pureza de uma criança, mas como o Ghandi que fez greve de fome, como o louco que foge do hospício procurando o sol, procurando o sol, em busca do sol. Porque a vida quer me engolir, mas eu conseguia suportar porque com você a vida arde de uma angústia enorme como um náufrago no meio do mar que só vê imensidão. E é avassalador, mas eu conseguia aguentar as presas enormes da vida. Mas agora eu sinto que ela vai acabar comigo, e trouxe a minha cachorra de volta pro meu quarto porque mesmo com pouco tempo de vida ela é a única coisa que apazigua o inferno do meu coração e que, mesmo se eu abrir a porta, não irá embora. Porque ela não é um pássaro e sim um animal cujo coração é a sua própria liberdade e isso o faz ficar. E dormi a noite inteira abraçada com os pelos brancos, desejando ao meu peito liberdade infinita. Dormi quase como se eu nunca fosse acordar, e acordei com o sol do louco no meu rosto. E só não o odiei também porque a vida quase me engole mas não me destrói. E porque meu peito sempre dói como um admirador do mar desesperado para achar a praia, mas é a única coisa que me faz continuar vivendo.
sábado, 31 de maio de 2014
Where the heart wanders
Suspira o vulto do vento
E suas volúpias voláteis levianas
Contra as bocas rachadas e santas
Murchas dos homens desumanos
Voa o vento veloz vivo
Parindo do peito um pássaro de polida luz
Cujos espectros externos cheios de aspectos sombrios
Velejam cansados e tortos às duras penas e portas
Entreabertas e profanas do meu coração
Mira-me um vizinho tom de vinho mágico
Adormecendo as pontas finas dos meus dedos e
Rezando-me um beijo doce e cálido de sangue no
Vasto vulgor eterno do céu
Racham os lábios pálidos dos homens desumanos
E num frescor feroz de fúria
Escorre o mundo diluindo devagar os crânios
Restantes do fogo e um ardor manso, de nada
É a morte, meu amor, e a morte
Tem cheiro de vida
A nos sobressaltar como um cálice de vinho
Esvoaçando as nossas cabeças ao som
Da música celestial
Assim como o vento me sopra
E de nada me entristecem os vultos
Que me contam uma breve e harmônica
História de amor
É a morte, meu bem, e a morte
Tem cheiro de vida.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Morfina
A solidão não deixa rastros. Não possui o dom do perdão e
não é perdoada por ninguém. É a visita insistente que faz
com que coloquemos veneno em seu chá pra que bata as botas. Mas ah, não tem
dessa com a solidão. Ela se nutre do pior que temos a oferecer. Como as baratas. Suga o veneno, bebe o chá,
pede mais uma xícara, e começa a visitar-nos com mais frequência. Senta-se, ou
melhor, apossa-se da cadeira mais linda da nossa casa. E os dias passam. Ela
torna-se a mais nova inquilina. E não há nada que possamos fazer, pois
desistimos de enterrá-la a força. A solidão toma afeição por nós quando
aparecemos para ela com paus e pedras, tentando vencê-la, ou quando nos
calamos. Vil, mas cheia de boas intenções, diverte-se sadicamente com o nosso
destempero. Com o tempo outros convidados chegam, mas a vontade de atender
terceiros é nula, afinal, a solidão engorda, vira uma mulher obesa. Quebra as
cadeiras. As pessoas não têm onde se sentar, e a vergonha assola todo o lugar, como uma
poeira estranha. Porque não importa a relação que tentemos estabelecer, a
sensação é de distância. Ninguém nos toca porque a mulher gorda está parada na
nossa frente. Possessa e possessiva, ela não vai a lugar algum. Tudo bem. Não
faz diferença. Você também não vai a lugar algum. E com o tempo deixamos a
sinceridade conosco e para com o mundo de lado, porque o universo e você estão
separados por uma imensa parede de ferro. E no momento se está tomando chá com
a velha gorda amiga quebrando as cadeiras e deixando-nos surdos e cegos e mudos.
Tudo se envolve em uma densa neblina. A vida fica meio engraçada, pois ninguém
te descobre. As pessoas só escutam o que querem ouvir. E é exatamente isso que
se diz. E se diz sem ter certeza de que as palavras chegaram. Não há som. A
densa neblina transforma-se em um aconchegante cobertor quando está frio. E a
vida fica mais calma. Nada se teme, porque a mulher gorda protege a casa com
unhas e dentes. Só que um dia ela fica
grande demais e vai embora. Mas a névoa fica. É tudo que fica. Nem o medo nem a
coragem, nem o amor nem o ódio. Apenas a solidão e a morfina e isso é tudo.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Eu nunca vou voar
As pessoas não são pessoas e eu nunca vou voar. Os pássaros olham-me, de uns tempos pra cá, com um certo ar de deboche. Se eu não posso voar, por que tenho olhos para ver o céu? Olho o céu e não posso voar. Absolutamente triste, eu fico. Como se além de não ter asas eu também não tivesse pés pra pisar no chão. A gravidade é demais pra mim. Sou aleijada na alma e por isso me falta o toque simples de quem pisa no chão com a delicadeza do ser, mesmo sabendo que não pode voar. Quem criou as regras desse jogo? Eu não quero mais brincar, não concordo, não quero mais saber. Perdi faz tempo, rio com as pessoas, mas nunca entendo a graça. Faz-me bem a incompreensão da alegria rasteira e geral, faz-me tão bem quanto uma navalha escavando o pescoço. Se existe uma parte podre minha que nem o vento nem o tempo nem o melhor dos sorrisos e das intenções pode me tirar, então por que não posso voar? Devo conviver o resto de minha vida com uma angústia que não consigo distribuir? Que me faz ter medo das pessoas que não são pessoas, dos pés delas que tocam o chão, das suas cabeças e do horror das suas palavras. Devo viver o resto da vida com horror da vida, com horror das pessoas que se aproximam demais e me olham com olhos sombrios? Devo viver uma eternidade sem conseguir me comunicar com o mundo? Como viver sempre retraindo e sufocando, respirando rápido demais pra não perder o ar, correndo dos lugares cheios? Se meus pés mal tocam o chão, como posso ir em busca do que é bom, se nem o bom é bom o suficiente para livrar-me do tão ruim. Se as pessoas não são pessoas e estão sempre comprando novos carros e novos apartamentos e novas vidas e dizendo que subiram na vida. Eu não quero subir na vida. Eu não quero que ninguém preste atenção em mim. E acordam pisando em solo infértil, e dormem como se não pudessem morrer. E temem a morte como se a vida não fosse assustadora. Porque não olham com atenção, porque não sabem quem são, porque não pensam antes de dizer, porque matam, porque torturam, porque negligenciam, porque ignoram. As pessoas não são as pessoas e eu tento fugir delas, mas sempre me encontram. Elas são como a gravidade e me tiram o sangue do rosto. Eu tenho medo de ser uma pessoa. Deus me livre, Deus me explique, por que eu não posso voar? Assim eu me livraria dessa gente que brota do chão como erva daninha, gente que se molda sem se construir. Eu não teria medo dos rostos feios deles e das suas verborragias medonhas. Deus que me livre de ser uma pessoa. Eu preferiria ser um rato, é mais digno, menos pobre, menos imundo, pelo menos eu não teria que brincar desse jogo infernal. Até morrer seria mais descente. Mas se eu tenho a forma de um ser humano eu provavelmente tenho a obrigação de ser feliz. Por que? Enquanto isso há uns anos atrás a Segunda Guerra Mundial e a Ditadura Militar, por que mesmo eu tenho que ser feliz se eu tenho medo dos seres humanos e em todo lugar eles estão? Todos eles me empurrando motivos e piadas e eu quero cuspi-los, quero vomitá-los com todas as minhas tripas e com todo o meu sangue que a humanidade tirou, junto com meu coração, inteiro e de uma vez só. Eu quero vomitar. Eu tenho horror em viver. Não tenho asas nem pés, então Deus, por que não me fez outra coisa? Por que eu tenho que viver em um corpo que não é meu? Por que tenho que sofrer o desgaste do mundo enquanto todos sorriem nas calçadas? Eu gostaria muito de me reduzir a nada, tem remédio pra isso? Eu cansei de me ser porque esse é o único mundo que eu consigo ver e não posso mudá-lo porque eu não me sou outra coisa. Cansei de me ser se ninguém é capaz de me amar porque a minha tristeza vai diminuindo-me a apenas uma luz opaca e ninguém consegue mais me abraçar, pois a falta de vida toma conta do meu corpo. Se não posso voar e também não tenho pés, ao menos espero que não exista vida após a morte, pois a morte tornou-se a vida. Não volto a esse mundo nunca mais. Nem se fosse pra voar. Nem voltando como o mais belo dos pássaros. As pessoas na Terra continuariam olhando pra mim e eu sinto um pavor tão grande que vou dormir.
sábado, 15 de março de 2014
Memória
Meu amor, escrevo-lhe à luz da lua, em meio ao inferno que
este mundo está se tornando. Olho para frente,
para trás e para os lados e as dunas que vejo parecem-me mais como vendavais
desfeitos por uma força maior. Das muitas coisas ao meu entorno, poucas tocam o
meu coração, acendem-me as pupilas, fazem o meu sangue correr. De nada me vale
esta lua se carrego de ti apenas uma foto manchada e uma lembrança nítida de tuas maçãs do rosto. Querida, estaria triste se ainda houvesse em meu coração
qualquer coisa além do desejo absurdo de lembrar de ti a cada milésimo de segundo, para
que assim, eu não te esqueças jamais. Eu sinto saudades. Os olhos da memória me falham,
talvez eu te veja mais bonita agora. Já não enxergo tuas veias saltando dos
braços ou teus olhos fundos de dor. Já
não encontro mais nas dunas as tuas
rugas na testa. Tudo que me resta é uma foto tua, quase tua. E ainda sou teu,
foi tudo que me restou: esta certeza. Enquanto não vejo tuas mãos delicadas e teus cabeços bagunçados, eu te imagino, te pressinto, pois o tempo passou, você
deve estar diferente na minha memória também. Te reinvento todos os dias para
que eu nunca me esqueça. E principalmente para que nunca esqueças, meu
amor, você ainda é tudo que eu tenho.
segunda-feira, 10 de março de 2014
Carta
Querido,
venha me salvar. As lâmpadas não acendem mais. Acho que cortaram a luz. São muitas contas a pagar- não que me falte dinheiro, falta força de vontade. Ou. Não sei. Aquele algo que você dizia fazer o corpo funcionar. Eu perdi, você achou? Você costumava achar qualquer coisa pra mim. Perdi coisas mais importantes do que sapatos ou as chaves, devo confessar. Nunca mais fiquei ansiosa pra fechar as portas do apartamento, com medo, você lembra? Nunca mais depois que você foi embora. Se você me visse agora, arrastando os pés por esse apartamento porque dói demais pisar no chão, será que você me explicaria o que houve? Ou o que não houve? Durmo de portas e janelas abertas na esperança de você vir brigar comigo falando mais uma vez que eu sou desapegada da vida. Precisava ver agora. Mas não entrou ninguém aqui, uma pena, nem você. Passo a maior parte do dia dormindo de olhos abertos, às vezes eu queria que alguém chegasse gritando, socando as paredes, chutando os móveis, qualquer coisa pra eu despertar. Virei um fantasma de você, querido, onde estão as respostas? Você me deixou sem nada. Todas as manhãs quando acordo, me pergunto se você ainda toma seu café forte, ou se por um milagre aprendeu a gostar de leite. Nunca entendi. Às vezes eu preferia que você tivesse morrido. Por que teve que ser eu? As pessoas dizem que você não gostava de mim. É verdade? Porque as portas do armário continuam abertas sem nada dentro do jeito que você deixou. Acho que a minha mãe varreu a casa, eu lembro de estar tudo sempre tão imundo aqui. Passei seis meses dizendo pra minha mãe e pro porteiro que você tinha ido em busca do motivo que eu disse pra você que queria encontrar, eu tive certeza de que você tinha ido achar pra mim, por uns seis meses ou seis anos eu tive certeza. Não consegui abandonar a casa, você parou a nossa vida ao meio e eu fiquei buscando pistas nesse cubículo. Nem um bilhete você deixou. Eu deveria te odiar, mas nem isso você me permitiu. Fiquei tentando encontrar o motivo que você não trouxe. Cortaram a luz, querido, mas minha mãe vai pagar a conta pra mim. Ela sabe de tudo e eu desaprendi tudo. Acho que daqui uma semana vou embora. Cheguei a arrumar minhas coisas outro dia, mas não achei a sandália que você me deu de aniversário e perdi a coragem. Não me movo daqui sem achá-las. As pessoas não entendem. Elas acham que você não gostava de mim. Vou embora porque nem eu sei. Preciso encontrar tudo que você levou de mim. Muito mais importantes que as sandálias ou as chaves. Eu preciso do motivo, querido, e agora finalmente sei que não posso mais contar com você.
sábado, 8 de março de 2014
A salvo
As vozes as cores os cheiros
Nada existe pra mim
As xícaras os livros as colchas
Nada existe pra mim
Os vultos as pessoas as nuvens
Tudo passa por mim
As letras as frases os gritos
Jamais saem de mim
A vida essa coisa estranha
Vida eu sinto muito
Mas você também não existe pra mim
O que sobra são
Pratos copos prateleiras
Que também não existem pra mim
E toco tudo e cheiro tudo
E os vultos vão passando e se curando
Se curando se passando
Dessa triste solidão que é a vida
Os garfos as facas nuances entrelinhas
Nada fala por mim
A vida essa triste eterna solidão
Das coisas por elas mesmas
E tudo sozinho e tudo apodrecendo
E duas mãos entrelaçadas e muito
Dióxido de carbono
E tudo sem sabor sem toque
Sem refrão sem suavidade sem nada
E os copos xícaras talheres
Sem nada
Nada existe pra mim
Sou o vulto do mundo
E ninguém sopra vida em mim
Ninguém me salva de não existir
Mas hoje olho os tapetes janelas cortinas
Sou todos eles e sonho e sonho e sonho
E estou a salvo
Nada existe pra mim
As xícaras os livros as colchas
Nada existe pra mim
Os vultos as pessoas as nuvens
Tudo passa por mim
As letras as frases os gritos
Jamais saem de mim
A vida essa coisa estranha
Vida eu sinto muito
Mas você também não existe pra mim
O que sobra são
Pratos copos prateleiras
Que também não existem pra mim
E toco tudo e cheiro tudo
E os vultos vão passando e se curando
Se curando se passando
Dessa triste solidão que é a vida
Os garfos as facas nuances entrelinhas
Nada fala por mim
A vida essa triste eterna solidão
Das coisas por elas mesmas
E tudo sozinho e tudo apodrecendo
E duas mãos entrelaçadas e muito
Dióxido de carbono
E tudo sem sabor sem toque
Sem refrão sem suavidade sem nada
E os copos xícaras talheres
Sem nada
Nada existe pra mim
Sou o vulto do mundo
E ninguém sopra vida em mim
Ninguém me salva de não existir
Mas hoje olho os tapetes janelas cortinas
Sou todos eles e sonho e sonho e sonho
E estou a salvo
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