Você estava de batom vermelho e eu simplesmente não conseguia parar de olhar para você. Nem quis tentar. Dessa vez não. Queria que você olhasse para mim.
Você não queria fumar, não queria fazer absolutamente nada que borrasse o seu batom. Qualquer coisa assim estragaria a sua pele, sua branca pele linda. Você é completamente chata e eu sempre soube disso, mas, por Deus, eu só queria te beijar. Não conseguia mais olhar para você daquele jeito, tão bonitinha, tão enxuta, tão pequena, com seu rabo-de-cavalo. Até naquele puta calor daquele show você não se desfazia. Com suas perninhas lindas. Toquei seus lábios, de levinho, de surpresa. Você deu um gritinho! Meu Deus, que lady. Só me dava vontade de te beijar, principalmente enquanto eu deitava no seu colo e você fazia carinho nas minhas costas.
Você foi a primeira mulher que eu beijei. Eu simplesmente queria arrumar um carro, uma carteira de habilitação, um dinheiro e um punhado de roupas e sair daqui com você. Eu só queria sair daqui com você.
E te beijar, e te fazer carinho nas costas. Em algum lugar em que você não fosse tão boba a ponto de não querer sujar o seu batom e perder a compostura.
Eu queria ir até algum lugar em que não tivesse quem olhar pra você, só eu. Assim você prestaria mais atenção em mim, prestaria atenção que naquela noite não era só mais uma daquelas em que eu estava esperando um pouco de sorte e que você ditasse as regras. Não, meu bem, definitivamente não. Eu só queria te olhar. Mesmo sabendo que você não ia me beijar daquela vez, mesmo sabendo que no fundo no fundo no fundo eu não te atraía tanto quanto você me atraía, eu juro, eu só queria olhar pra você.
Olhar tanto tempo e tão fundo nos seus olhos a ponto de você achar engraçado. Não costumo encarar os outros dessa forma, mas eu simplesmente precisava daquele momento. Precisava capturar aquilo, precisaria me lembrar em um futuro bem distante que você é a mulher mais linda que eu já conheci na minha vida. A mais atraente, mais sexy, complicada e simplesmente chata. Pseudo-intelectual e bem variável. Você me encantava. Eu simplesmente precisei deixar registrado o quanto a sua presença me regozijava e me inquietava. Ter você o show inteiro dançando comigo e segurando a minha mão o mais forte possível que a sua altura lhe permitia. Olhando a sua boca, seu batom, e pensando "puta que pariu!"
Eu só conseguia pensar puta que pariu. Eu queria sair correndo e levar você nas costas.
Você sempre seria mais do que uma amiga, a minha companheira de alma. A primeira garota que eu beijei na vida. Eu nunca me esqueceria de você. Naquela noite, eu tive essa certeza.
"A verdade? É uma coisa exterior? Não posso ter a certeza dela, porque não é uma sensação minha, e eu só destas tenho certeza." Fernando Pessoa
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domingo, 8 de março de 2015
in the afternoon you said to me
"baby i'm leaving"
and even though i had heard
"ok honey i'm going to hell i'm going to meet all the bitches in the word: i'm gonna go everywhere without you"
i just lot patiently at you and told you that it was alright.
it is. even in the planes where there are people and all their sickness and all their remedys and all their: "i need to turn on the light here even if you asleep, i am so sorry"
it is alright, but i don't know why it is so hard to love people when they are breathing next to you
and i know that should be a good opportunity to get to know them, but
well, in those moments i just want to scream
and run away. indeed.
in that moment when you are flying but you have no air.
and it is alright, baby, let's enjoy the clouds.
i actually don't know why it is so hard to like people.
sitting next to a person that you don't know but could get to
should be lovely. for the others, may it happens.
but ok God, let's try it one more time:
i will try to keep being a good person
and smiling at people and taking good chances and helping them.
i will try because i don't want to go to hell or whatever people call
it: probably there i would meet a lot of killers, rapists, pedophiles, and all human with
no soul.
and i really don't have an idea if the person sitting beside me is one
of these. but during the flight i promise just to think the best.
it is a good person. it is a good person. it is a good person.
dear God, i am afraid it isn't.
at least in there i have the doubt. in the hell i would be sure about it.
"hey baby i'm leaving"
i need a remedy.
"baby i'm leaving"
and even though i had heard
"ok honey i'm going to hell i'm going to meet all the bitches in the word: i'm gonna go everywhere without you"
i just lot patiently at you and told you that it was alright.
it is. even in the planes where there are people and all their sickness and all their remedys and all their: "i need to turn on the light here even if you asleep, i am so sorry"
it is alright, but i don't know why it is so hard to love people when they are breathing next to you
and i know that should be a good opportunity to get to know them, but
well, in those moments i just want to scream
and run away. indeed.
in that moment when you are flying but you have no air.
and it is alright, baby, let's enjoy the clouds.
i actually don't know why it is so hard to like people.
sitting next to a person that you don't know but could get to
should be lovely. for the others, may it happens.
but ok God, let's try it one more time:
i will try to keep being a good person
and smiling at people and taking good chances and helping them.
i will try because i don't want to go to hell or whatever people call
it: probably there i would meet a lot of killers, rapists, pedophiles, and all human with
no soul.
and i really don't have an idea if the person sitting beside me is one
of these. but during the flight i promise just to think the best.
it is a good person. it is a good person. it is a good person.
dear God, i am afraid it isn't.
at least in there i have the doubt. in the hell i would be sure about it.
"hey baby i'm leaving"
i need a remedy.
Hoje
Hoje é sexta
Já são quase 11
E você não me ligou
Hoje é sexta
E você foi pra casa dela
Dei um sorriso tímido
Mas não fui sincera
Será que eu faço parte
De alguma coisa que já foi inteira
Ou será que estou apenas
Tentando juntar os cacos?
Hoje é sexta e eu quis abrir as asas
Voar pra onde eu encontrasse respostas
Ou ao menos seu cheirinho
Sem essa poeira das caixas
De mudança
Eu vou sair daqui, eu digo
Mas cinco minutos depois eu volto
Por conforto ou desespero
Por saudade ou aconchego
Hoje é sexta e eu nem sei de você
Vou dormir sem saber como foi o seu dia porque
Talvez eu não queira nem saber
Pra não me aborrecer
Você me olha e diz que meus olhos são verdes
E eu quase digo que eu não sei dizer
Porque eu já decorei todos os seus tipos de sorriso
Mas você me olha e não consegue me ver
E eu estou buscando palavras que se esvaem
Só pra dizer
Que hoje é sexta e eu
Eu não sei de você
Já são quase 11
E você não me ligou
Hoje é sexta
E você foi pra casa dela
Dei um sorriso tímido
Mas não fui sincera
Será que eu faço parte
De alguma coisa que já foi inteira
Ou será que estou apenas
Tentando juntar os cacos?
Hoje é sexta e eu quis abrir as asas
Voar pra onde eu encontrasse respostas
Ou ao menos seu cheirinho
Sem essa poeira das caixas
De mudança
Eu vou sair daqui, eu digo
Mas cinco minutos depois eu volto
Por conforto ou desespero
Por saudade ou aconchego
Hoje é sexta e eu nem sei de você
Vou dormir sem saber como foi o seu dia porque
Talvez eu não queira nem saber
Pra não me aborrecer
Você me olha e diz que meus olhos são verdes
E eu quase digo que eu não sei dizer
Porque eu já decorei todos os seus tipos de sorriso
Mas você me olha e não consegue me ver
E eu estou buscando palavras que se esvaem
Só pra dizer
Que hoje é sexta e eu
Eu não sei de você
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Encontro
As ruas me parecem enormes demais. Quando as olho, aqui de casa, mal consigo me mover. As ruas são ponto de encontros. Assim como as casas e os bares e os shoppings. Que estão nas ruas.
A rua vem antes.
É delas que surgem o meu medo do que eu possa ver e do que posso não ver. Ando pelas ruas buscando encontrar o que existe.
As ruas estão apinhadas e vazias. Elas gritam também quando estão vazias.
A rua é a terra, são as histórias, as pessoas, os lares, as matanças e os sequestros.
A rua existe antes daquilo que existe.
Eu vou pra lá porque uma parte de mim existe antes do existir.
Quando eu era pequena e me olhava no espelho não conseguia entender o que vinha por trás do meu rosto e das minhas ligações cerebrais. Não conseguia entender o que era o mundo material.
Eu sempre fui de dentro pra dentro.
Às vezes não gosto de olhar. Me dá medo me olhar e ver que sou uma figura estranha que enxergo a mim. Como é uma pessoa ver a ela mesma? Eu era muito nova pra pensar essas coisas.
Acho que foi o divisor de águas da minha infância. A passagem pro sofrimento.
Eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo.
Achava o corpo humano um espaço muito limitado para se ficar.
Achei aprisionante todas as minhas partes. Foi aí que a vida começou a acontecer para mim.
Quando eu me vi no espelho da casa de uma amiga e não conseguia acreditar que o meu cérebro era tudo que eu era. Era inconcebível.
Eu não me sentia com 12 anos de idade, não me sentia com aquele corpo, rosto, com meus braços e dentes. Eu me via tão diferente dentro de mim. Foi como se eu tivesse morrido. Eu morri quando a vida começou a acontecer.
Nunca achei que o meu corpo era um lugar meu. Não acho que ninguém mora dentro do seu corpo.
Eu não tinha mais medo de nada como tinha medo daquele mistério. Eu olhava pra mim e não me via.
Eu tive consciência de mim.
Eu me olhei e fiquei alheia de mim mesma.
Foi quando eu pensei: o que esse cérebro faz dentro da minha alma?
O que a minha alma faz dentro desse cérebro?
Foi aí que eu percebi.
Que eu estava olhando pra mim na terceira pessoa. Como uma pessoa que observa um gato sendo atropelado.
Eu tive horror daquilo. De me imaginar naquela prisão de mim mesma.
Ei, sai de mim.
Eu queria me sair.
Não conseguia me olhar sabendo que eu me olhava.
E que o meu eu sabia que eu estava olhando.
Não foi um monólogo, foi uma conversa.
Era a vida conversando com a matéria.
Eu nunca consegui explicar isso pra ninguém. Mas os espelhos são o maior medo da minha infância.
Até agora, explicando isso por meio dessas palavras, não me parece como eu gostaria.
É um momento que não pode ser explicado apenas com o corpo.
Não há linguagem.
Não há nem coração para isso.
É como a rua.
Existe antes de tudo existir.
Isso que está em mim existe antes de eu nascer.
Não consigo chamar de alma. Me parece tão vago.
É como dizer eu te amo quando você ama. É tão pouco que não dá nem vontade de dizer. Se fica naquela tristeza incomunicável.
O que me vem agora eu não posso comunicar.
Eu não me comunico nunca.
A pessoa que lhe fala é a pessoa que me olha no espelho.
Não há expressão.
Desde aquele dia eu fiquei muda. Achando que era coisa de gente doente.
Mas mais do que isso: era o medo de não conseguir falar o que é.
E até agora eu só estou escrevendo o que não é.
Tento me pegar, mas estou sempre escapando do meu entendimento.
Aquele momento foi pra mim como o parto e a morte ao mesmo tempo. Não conseguia me mexer. Tinha enfim descoberto que a própria prisão era a do corpo.
Não queria que soasse tão mal assim.
Mas eu me senti paralisada pela descoberta.
Era uma coisa tão minha que eu só consigo falar disso agora, anos depois.
Eu sentia que tentando explicar doeria mais.
E agora está doendo porque não sei dizer.
Eu ficava imaginando todas as minhas veias e todo o meu sangue e todas as minhas cavidades. Me sentia incapaz de lidar com aquilo.
Foi uma diferença de alguns instantes apenas. Eu fiquei me olhando por alguns instantes, e esse sentimento não era de palavras como agora parece ser.
Esse sentimento não era de nada.
Era um susto que eu não conseguia concretizar em pensamentos.
Eu me era estranha a mim.
Me achava alheia.
Não que eu quisesse ser outra pessoa.
Eu não queria ter uma forma.
Era mais do que não querer me ser, era não querer ser.
Doía demais olhar para aquele rosto. Eu não me sentia ali. Me senti observando um ser sem vida.
Foi aí que a vida aconteceu. Quando eu me olhei sem vida.
Eu me olhei fora do meu corpo.
Eu estava fora de mim.
Eu me perdi por alguns instantes e achei que não fosse nunca mais voltar.
Ao mesmo tempo me estava tão dentro que foi quase como se eu fosse total uma parte do meu fígado, do meu estômago.
Olha, está sendo difícil para mim.
Estou contando o meu maior medo e mesmo assim ele não sai de dentro.
Isso que eu senti veio antes de eu saber como é que o meu corpo o sente.
O meu medo é tão grande que ele não se encaixa na linguagem.
Como é que se diz que dá medo existir?
Assim, eu tenho medo de existir. Não é nem ódio. Não é tristeza. É medo.
Eu não consegui mais me olhar direito.
Por uns anos odiava me ver em fotos.
Não me reconhecia.
Não me encaixava na matéria.
Quisera eu nunca ter visto o meu reflexo.
Era muito pavoroso poder encostar em mim, poder sentir que havia sangue pulsando em mim. Como eu estava ali se eu estava morta?
Como meu coração batia se eu me olhava fora do meu corpo?
Eu fiquei alheia de mim.
Nunca mais quis conversar comigo de novo.
Até hoje. Até agora.
Em que olhei a rua e pensei nisso.
Pensei que ninguém se reconhece na rua.
Mas a rua é o espelho de todos.
A rua é toda a existência.
Lá a gente se vê.
Lá nos vemos uns aos outros.
Lá está toda a misericórdia e a falta de paz.
Lá estão os meus casos felizes e as minhas tristezas.
No meu espelho está a minha miséria.
Este mundo é a minha jaula.
O meu corpo é a cela maior, e na rua eu saio para tomar banho de sol.
Estou sempre tão presa em mim.
É como se eu não fosse capaz de me libertar.
Como se dar um passo fosse uma dor enorme porque seu corpo te acompanha.
E você se vê tão de fora.
Como excluído de uma mesa de bar.
É mais. Mas é tudo que sou capaz de dizer agora.
Eu saí daquele banheiro e fiquei olhando pra cara da minha amiga. Como se diz pra alguém que ama a gente que a gente se foi? Como dizer pra quem a gente ama que a gente se quer ir?
A vida é um tipo de morte.
Foi quando eu descobri que eu estava morta no meu corpo que eu comecei a estar pronta para a vida.
É como dormir um sono sem sonhos. Isto é viver.
É olhar para dentro de si e reparar que o que existe dentro de você aconteceu antes de você nascer.
É respirar em um parque e sentir que você é parte do local.
Se não houvesse o peso do corpo eu não teria tanto medo assim.
Ainda é difícil me olhar por muito tempo. Me acho diferente do que sou.
Completamente alheia.
Viver é como meditar para sempre.
É se olhar de dentro pra dentro.
Descobrir que todas as coisas que te formam são aquelas que também não te formam.
Que tudo existe antes de tudo existir.
Que nunca teve um começo e nunca terá um fim.
Acredito que a vida seja para sempre e a morte seja temporária.
A morte é de cada um.
A minha foi o me olhar no espelho com medo da existência.
Mas foi morrendo que eu comecei a entender que aquilo era a Vida.
A Vida se fazia em mim.
Minha vida começou quando eu tinha 12 anos.
Pelo menos foi quando eu tomei consciência dela.
Tudo só passa a existir de fato quando a gente se percebe enquanto existência.
Isso vale para todas as outras coisas.
A morte é de cada um.
A Vida também.
A rua vem antes.
É delas que surgem o meu medo do que eu possa ver e do que posso não ver. Ando pelas ruas buscando encontrar o que existe.
As ruas estão apinhadas e vazias. Elas gritam também quando estão vazias.
A rua é a terra, são as histórias, as pessoas, os lares, as matanças e os sequestros.
A rua existe antes daquilo que existe.
Eu vou pra lá porque uma parte de mim existe antes do existir.
Quando eu era pequena e me olhava no espelho não conseguia entender o que vinha por trás do meu rosto e das minhas ligações cerebrais. Não conseguia entender o que era o mundo material.
Eu sempre fui de dentro pra dentro.
Às vezes não gosto de olhar. Me dá medo me olhar e ver que sou uma figura estranha que enxergo a mim. Como é uma pessoa ver a ela mesma? Eu era muito nova pra pensar essas coisas.
Acho que foi o divisor de águas da minha infância. A passagem pro sofrimento.
Eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo.
Achava o corpo humano um espaço muito limitado para se ficar.
Achei aprisionante todas as minhas partes. Foi aí que a vida começou a acontecer para mim.
Quando eu me vi no espelho da casa de uma amiga e não conseguia acreditar que o meu cérebro era tudo que eu era. Era inconcebível.
Eu não me sentia com 12 anos de idade, não me sentia com aquele corpo, rosto, com meus braços e dentes. Eu me via tão diferente dentro de mim. Foi como se eu tivesse morrido. Eu morri quando a vida começou a acontecer.
Nunca achei que o meu corpo era um lugar meu. Não acho que ninguém mora dentro do seu corpo.
Eu não tinha mais medo de nada como tinha medo daquele mistério. Eu olhava pra mim e não me via.
Eu tive consciência de mim.
Eu me olhei e fiquei alheia de mim mesma.
Foi quando eu pensei: o que esse cérebro faz dentro da minha alma?
O que a minha alma faz dentro desse cérebro?
Foi aí que eu percebi.
Que eu estava olhando pra mim na terceira pessoa. Como uma pessoa que observa um gato sendo atropelado.
Eu tive horror daquilo. De me imaginar naquela prisão de mim mesma.
Ei, sai de mim.
Eu queria me sair.
Não conseguia me olhar sabendo que eu me olhava.
E que o meu eu sabia que eu estava olhando.
Não foi um monólogo, foi uma conversa.
Era a vida conversando com a matéria.
Eu nunca consegui explicar isso pra ninguém. Mas os espelhos são o maior medo da minha infância.
Até agora, explicando isso por meio dessas palavras, não me parece como eu gostaria.
É um momento que não pode ser explicado apenas com o corpo.
Não há linguagem.
Não há nem coração para isso.
É como a rua.
Existe antes de tudo existir.
Isso que está em mim existe antes de eu nascer.
Não consigo chamar de alma. Me parece tão vago.
É como dizer eu te amo quando você ama. É tão pouco que não dá nem vontade de dizer. Se fica naquela tristeza incomunicável.
O que me vem agora eu não posso comunicar.
Eu não me comunico nunca.
A pessoa que lhe fala é a pessoa que me olha no espelho.
Não há expressão.
Desde aquele dia eu fiquei muda. Achando que era coisa de gente doente.
Mas mais do que isso: era o medo de não conseguir falar o que é.
E até agora eu só estou escrevendo o que não é.
Tento me pegar, mas estou sempre escapando do meu entendimento.
Aquele momento foi pra mim como o parto e a morte ao mesmo tempo. Não conseguia me mexer. Tinha enfim descoberto que a própria prisão era a do corpo.
Não queria que soasse tão mal assim.
Mas eu me senti paralisada pela descoberta.
Era uma coisa tão minha que eu só consigo falar disso agora, anos depois.
Eu sentia que tentando explicar doeria mais.
E agora está doendo porque não sei dizer.
Eu ficava imaginando todas as minhas veias e todo o meu sangue e todas as minhas cavidades. Me sentia incapaz de lidar com aquilo.
Foi uma diferença de alguns instantes apenas. Eu fiquei me olhando por alguns instantes, e esse sentimento não era de palavras como agora parece ser.
Esse sentimento não era de nada.
Era um susto que eu não conseguia concretizar em pensamentos.
Eu me era estranha a mim.
Me achava alheia.
Não que eu quisesse ser outra pessoa.
Eu não queria ter uma forma.
Era mais do que não querer me ser, era não querer ser.
Doía demais olhar para aquele rosto. Eu não me sentia ali. Me senti observando um ser sem vida.
Foi aí que a vida aconteceu. Quando eu me olhei sem vida.
Eu me olhei fora do meu corpo.
Eu estava fora de mim.
Eu me perdi por alguns instantes e achei que não fosse nunca mais voltar.
Ao mesmo tempo me estava tão dentro que foi quase como se eu fosse total uma parte do meu fígado, do meu estômago.
Olha, está sendo difícil para mim.
Estou contando o meu maior medo e mesmo assim ele não sai de dentro.
Isso que eu senti veio antes de eu saber como é que o meu corpo o sente.
O meu medo é tão grande que ele não se encaixa na linguagem.
Como é que se diz que dá medo existir?
Assim, eu tenho medo de existir. Não é nem ódio. Não é tristeza. É medo.
Eu não consegui mais me olhar direito.
Por uns anos odiava me ver em fotos.
Não me reconhecia.
Não me encaixava na matéria.
Quisera eu nunca ter visto o meu reflexo.
Era muito pavoroso poder encostar em mim, poder sentir que havia sangue pulsando em mim. Como eu estava ali se eu estava morta?
Como meu coração batia se eu me olhava fora do meu corpo?
Eu fiquei alheia de mim.
Nunca mais quis conversar comigo de novo.
Até hoje. Até agora.
Em que olhei a rua e pensei nisso.
Pensei que ninguém se reconhece na rua.
Mas a rua é o espelho de todos.
A rua é toda a existência.
Lá a gente se vê.
Lá nos vemos uns aos outros.
Lá está toda a misericórdia e a falta de paz.
Lá estão os meus casos felizes e as minhas tristezas.
No meu espelho está a minha miséria.
Este mundo é a minha jaula.
O meu corpo é a cela maior, e na rua eu saio para tomar banho de sol.
Estou sempre tão presa em mim.
É como se eu não fosse capaz de me libertar.
Como se dar um passo fosse uma dor enorme porque seu corpo te acompanha.
E você se vê tão de fora.
Como excluído de uma mesa de bar.
É mais. Mas é tudo que sou capaz de dizer agora.
Eu saí daquele banheiro e fiquei olhando pra cara da minha amiga. Como se diz pra alguém que ama a gente que a gente se foi? Como dizer pra quem a gente ama que a gente se quer ir?
A vida é um tipo de morte.
Foi quando eu descobri que eu estava morta no meu corpo que eu comecei a estar pronta para a vida.
É como dormir um sono sem sonhos. Isto é viver.
É olhar para dentro de si e reparar que o que existe dentro de você aconteceu antes de você nascer.
É respirar em um parque e sentir que você é parte do local.
Se não houvesse o peso do corpo eu não teria tanto medo assim.
Ainda é difícil me olhar por muito tempo. Me acho diferente do que sou.
Completamente alheia.
Viver é como meditar para sempre.
É se olhar de dentro pra dentro.
Descobrir que todas as coisas que te formam são aquelas que também não te formam.
Que tudo existe antes de tudo existir.
Que nunca teve um começo e nunca terá um fim.
Acredito que a vida seja para sempre e a morte seja temporária.
A morte é de cada um.
A minha foi o me olhar no espelho com medo da existência.
Mas foi morrendo que eu comecei a entender que aquilo era a Vida.
A Vida se fazia em mim.
Minha vida começou quando eu tinha 12 anos.
Pelo menos foi quando eu tomei consciência dela.
Tudo só passa a existir de fato quando a gente se percebe enquanto existência.
Isso vale para todas as outras coisas.
A morte é de cada um.
A Vida também.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Puta que pariu!
Não estou alterada, nem de TPM, nem louca, nem com fogo no rabo,
eu estou completamente TRISTE por ver uma juventude tão perdida que continua
reproduzindo e reproduzindo e reproduzindo os mesmos preconceitos de séculos
atrás.
Eu quero que todos os homens desse mundo que acham que o lugar de uma mulher é unicamente na cozinha se afoguem na pia, na privada e no ralo juntamente a suas merdas de opiniões.
Entendam, de uma vez por todas: rir de uma piada machista, sexista, que contenha preconceito de qualquer tipo, não te faz uma pessoa melhor do que o que FEZ a piada. Principalmente em uma rede social, se deliciar com a desgraça do outro, com o sofrimento alheio é VERGONHOSO. É disseminar uma ideia tosca, um estereótipo mal-formulado. Ninguém precisa da merda da sua opinião se ela não ajuda em nada a luta de milhões de seres humanos (homens, também!) que passam dias tentando desconstruir o patriarcado e o sexismo, seja por meio de textos, blogs, por meio do jornalismo ou mesmo indo as ruas participar das passeatas.
Pense bem: você gostaria de ser MENOSPREZADO pelo seu gênero? Você gostaria de passar na rua e ser só uma BUNDA? Você gostaria do fato das suas idéias não valerem nada frente a isso? Gostaria de ir a uma Bienal de Livros comprar livros para se tornar um profissional mais competente, e assim que pisa no local, alguém passa a mão na sua bunda? Como se você fosse um mero objeto, como se você nem estivesse ali? Certamente que não.
Você gostaria de lutar por um mundo melhor, em que as pessoas SE RESPEITEM, em que haja limites para o HUMOR, e ver pessoas se deliciando com o menosprezo alheio?
É o seguinte: para cada piada de mulher que você ri, para cada piada de homossexual, para cada piada de negro, enquanto você está rindo do outro lado da tela provavelmente há uma pessoa SOFRENDO HORRORES COM FALTA DE ESPERANÇA NO MUNDO.
Em que mulheres não deveriam ocupar algum cargo porque deveriam estender roupa num varal. Quem vocês acham que são para brincarem com o sentimento dos outros?
Quem vocês acham que são para brincarem com a luta dos outros?
Isso é sério. Isso é falta de respeito. Isso não é liberdade de expressão caros seres humanos, ISSO É DESRESPEITO, e eu acredito, com toda a minha fé, que Deus está vendo essas barbaridades.
A vida está aí: cabe a cada um decidir o que fará dela. Siga em frente rindo das pessoas, compartilhando essas brincadeiras bizarras, achando que o mundo é um algodão doce cor-de-rosa em que todas as pessoas são felizes.
Para vocês é fácil, afinal de contas não são vocês que são assediados na rua, que tem medo de sair de casa. Não são vocês que cresceram ouvindo que “mulher não pode isso, que mulher não pode aquilo, que mulher tem que ser santa e uma boa esposa”.
Na boa, os meus sonhos são: ser uma profissional competente, estudar para tanto. É uma tristeza se esforçar e ler constantemente que lugar de mulher é na cozinha.
E sabe qual é o lugar de vocês? O lugar de vocês é na puta que os pariu.
Para vocês é apenas uma brincadeira. Ok, certo. Mas o meu coração dói. O meu coração dói de verdade.
Penso em todas as mulheres que sofrem constantemente para conquistar direitos para si mesmas, e para todas as outras. As feministas querem os direitos para todas, suas moças machistas!
É muito fácil se acomodar quando você não precisa pegar o transporte público e caminhar na rua sozinha. Quando você não é uma transexual e não é agredida verbalmente e fisicamente constantemente. Realmente, é muito fácil. Não se esqueça que um dia, quando você estiver passando despercebida, um homem poderá passar a mão em você.
E o que você vai dizer? Continuará com esse discurso de “homem é assim mesmo?”
Homens, no dia que vocês tiverem uma filha e ela sofrer assédio ou for estuprada, o que você vai fazer? Proibi-la de sair de casa? Mandá-la se vestir como santa?
Nada disso adiantará. Porque nesse momento o veneno já terá se espalhado por todo o mundo.
E adivinha quem os espalhou por aí?
Foram vocês mesmos.
Essa corja.
Estou envergonhada.
Eu quero que todos os homens desse mundo que acham que o lugar de uma mulher é unicamente na cozinha se afoguem na pia, na privada e no ralo juntamente a suas merdas de opiniões.
Entendam, de uma vez por todas: rir de uma piada machista, sexista, que contenha preconceito de qualquer tipo, não te faz uma pessoa melhor do que o que FEZ a piada. Principalmente em uma rede social, se deliciar com a desgraça do outro, com o sofrimento alheio é VERGONHOSO. É disseminar uma ideia tosca, um estereótipo mal-formulado. Ninguém precisa da merda da sua opinião se ela não ajuda em nada a luta de milhões de seres humanos (homens, também!) que passam dias tentando desconstruir o patriarcado e o sexismo, seja por meio de textos, blogs, por meio do jornalismo ou mesmo indo as ruas participar das passeatas.
Pense bem: você gostaria de ser MENOSPREZADO pelo seu gênero? Você gostaria de passar na rua e ser só uma BUNDA? Você gostaria do fato das suas idéias não valerem nada frente a isso? Gostaria de ir a uma Bienal de Livros comprar livros para se tornar um profissional mais competente, e assim que pisa no local, alguém passa a mão na sua bunda? Como se você fosse um mero objeto, como se você nem estivesse ali? Certamente que não.
Você gostaria de lutar por um mundo melhor, em que as pessoas SE RESPEITEM, em que haja limites para o HUMOR, e ver pessoas se deliciando com o menosprezo alheio?
É o seguinte: para cada piada de mulher que você ri, para cada piada de homossexual, para cada piada de negro, enquanto você está rindo do outro lado da tela provavelmente há uma pessoa SOFRENDO HORRORES COM FALTA DE ESPERANÇA NO MUNDO.
Em que mulheres não deveriam ocupar algum cargo porque deveriam estender roupa num varal. Quem vocês acham que são para brincarem com o sentimento dos outros?
Quem vocês acham que são para brincarem com a luta dos outros?
Isso é sério. Isso é falta de respeito. Isso não é liberdade de expressão caros seres humanos, ISSO É DESRESPEITO, e eu acredito, com toda a minha fé, que Deus está vendo essas barbaridades.
A vida está aí: cabe a cada um decidir o que fará dela. Siga em frente rindo das pessoas, compartilhando essas brincadeiras bizarras, achando que o mundo é um algodão doce cor-de-rosa em que todas as pessoas são felizes.
Para vocês é fácil, afinal de contas não são vocês que são assediados na rua, que tem medo de sair de casa. Não são vocês que cresceram ouvindo que “mulher não pode isso, que mulher não pode aquilo, que mulher tem que ser santa e uma boa esposa”.
Na boa, os meus sonhos são: ser uma profissional competente, estudar para tanto. É uma tristeza se esforçar e ler constantemente que lugar de mulher é na cozinha.
E sabe qual é o lugar de vocês? O lugar de vocês é na puta que os pariu.
Para vocês é apenas uma brincadeira. Ok, certo. Mas o meu coração dói. O meu coração dói de verdade.
Penso em todas as mulheres que sofrem constantemente para conquistar direitos para si mesmas, e para todas as outras. As feministas querem os direitos para todas, suas moças machistas!
É muito fácil se acomodar quando você não precisa pegar o transporte público e caminhar na rua sozinha. Quando você não é uma transexual e não é agredida verbalmente e fisicamente constantemente. Realmente, é muito fácil. Não se esqueça que um dia, quando você estiver passando despercebida, um homem poderá passar a mão em você.
E o que você vai dizer? Continuará com esse discurso de “homem é assim mesmo?”
Homens, no dia que vocês tiverem uma filha e ela sofrer assédio ou for estuprada, o que você vai fazer? Proibi-la de sair de casa? Mandá-la se vestir como santa?
Nada disso adiantará. Porque nesse momento o veneno já terá se espalhado por todo o mundo.
E adivinha quem os espalhou por aí?
Foram vocês mesmos.
Essa corja.
Estou envergonhada.
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Algumas palavras inúteis à garota que jamais conheci
Sentei em seu colo num instante abrupto
como outro
qualquer.
Enrosquei suas pernas em minhas pernas
quando lhe conheci
sem dizer oi.
Ela tinha o coração um pouco
machucado e
um lindo rosto.
Eu a beijei. nós fumamos e
dançamos.
Mas qualquer um poderia dizer qualquer
coisa
sobre isto.
Quando deito em minha cama ela faz um
barulho quase que de
um lamento triste.
Um murmúrio baixo indicativo de que
essa é apenas
mais uma noite como
todas as outras.
Em que se está só e nem um pouco triste
e nem um pouco feliz.
Minha cama range e eu penso em todos
os barulhos da minha vida que
viraram silêncio.
Como quase todos os momentos de quase todas
as pessoas.
Ainda assim estou absolutamente só e lembrando
dos suspiros daquela
garota
que deixou um quê de relâmpado que na hora
não vi
[mas que hoje continua ardendo nas minhas vistas como se
nunca tivesse passado.
como outro
qualquer.
Enrosquei suas pernas em minhas pernas
quando lhe conheci
sem dizer oi.
Ela tinha o coração um pouco
machucado e
um lindo rosto.
Eu a beijei. nós fumamos e
dançamos.
Mas qualquer um poderia dizer qualquer
coisa
sobre isto.
Quando deito em minha cama ela faz um
barulho quase que de
um lamento triste.
Um murmúrio baixo indicativo de que
essa é apenas
mais uma noite como
todas as outras.
Em que se está só e nem um pouco triste
e nem um pouco feliz.
Minha cama range e eu penso em todos
os barulhos da minha vida que
viraram silêncio.
Como quase todos os momentos de quase todas
as pessoas.
Ainda assim estou absolutamente só e lembrando
dos suspiros daquela
garota
que deixou um quê de relâmpado que na hora
não vi
[mas que hoje continua ardendo nas minhas vistas como se
nunca tivesse passado.
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Urgência
Agora estou demolindo os fortes que outrora construí
com minha vastidão de suores, de sangue e de pedras,
que retirei com as próprias mãos dos meus rins.
Eu me doo toda para me proteger.
É incrível, é milenar, é bonito. Mas dói. Dor de demolir a dor
porque me demolir significa colocar as pedras de volta
com as próprias mãos minhas.
E abrir um buraco que há muito estava cicatrizado.
Agora estou com as pernas bambas tentando fugir do meu esconderijo.
Não como se um lobo estivesse à espreita para me comer,
mas de um jeito tal que eu esteja à espreita para comer o lobo.
Tenho medo. Não porque sou pequenina,
mas medo do que minhas próprias entranhas podem fazer.
Comigo e com o lobo.
Eu não tenho medo de morrer. Eu tenho medo de comer o lobo
e comer o forte e comer a minha própria dor.
De acabar comigo.
Eu não tenho medo de morrer; tenho medo de matar.
Matar o que construí com tanta vitória e tanto zelo e tanta
autocomiseração.
Medo não do mundo, que já me encarou trocentas vezes,
mas de mim, que dessa vez olharei o mundo de frente.
Medo de não ter medo e de abrir os braços em tamanha plenitude
que possa doer.
Porque é tamanho o barulho e as visões e o mundo
que meu coração baterá mais forte.
E as pedras sacudirão nas minhas vísceras como se eu nunca
as tivesse retirado de lá.
Sorrirei- sem piedade de mim.
E sem piedade do lobo que irei comer.
Mas com profunda e total piedade
do suor que deixei nos meus pilares de dor,
junto a uma outra pessoa que nunca achou que fosse existir alguma coisa a mais
para mim.
Sou o meu lobo. E me comerei.
Até porque meu maior medo não é da dor, a dor me facilitou a fuga.
O que me apavora é que terei de matar para viver.
Eu me matarei.
Com enxadas no forte, escavadeiras e um barulho insuportável: eu posso ouvir.
Com minhas duas mãos aplaudirei, e com meus joelhos dobrados estarei ajoelhada,
torcendo para Deus me perdoar.
Preciso viver.
E se para isso eu precise matar: mato.
Ressurgirei do outro lado.
É de uma determinação tão imensa o que agora sinto que quase dói.
De tão perto que está a luz.
E nem sei se a quero. Meu coração dói mas ao menos agora o ouço batendo.
A vida pulsa em mim, é assustador.
Há muito sangue em mim, sinto o cheiro.
De uma dor tão real que começo a me sentir até um pouco melhor com o que farei,
Porque antes a dor estava e eu não.
Agora matei o não-eu para eu e minha dor sermos duas.
Não sei se chego a uma alegria sem dor, meus estados de espírito insistem em me perturbar.
Para viver terei que matar. E depois não sei o que resta.
Agora é só uma sensação.
É de um jeito que nem estou aqui, mas as pedras continuam latejando
como se eu precisasse abrir os olhos. É uma necessidade.
Preciso matar, embora meus olhos se fechem involuntariamente.
Estou triste de uma tristeza profunda porque não sei matar apesar de querer.
Não conseguirei atravessar o forte. É alto demais, quase como chegar ao céu.
E fui eu que o construí.
Acho que o antes de mim sabia que eu precisaria fugir.
É de uma urgência.
E me abandonou aqui na minha solidão.
Não poderei matá-la: ela, meu outro-eu, minha antítese.
Ela já pulou, o que faço, como saio?
Não há ninguém para me dar a mão.
Eu e eu nos detestamos. Acho que terei que me retirar desta briga.
Dormirei. Talvez amanhã minha outra eu renasça aqui no cativeiro que construiu,
e nem imagine que amanhã também estarei. Ou talvez sim.
Ela é inerte porém esperta.
Não tem medo de morrer, mas morre sempre.
Eu nunca morro mas preciso matar.
Eu a devoro desejando morrer.
Necessitando viver.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Dentro
Em um dia de verão (não importam as estações, para mim sempre quando está um calor tão grande que nem dormir consigo, é verão). Bom, em uma noite de verão, estava eu deitada no assoalho de madeira da sala, desejando um pouco de frescor. Que não saía das janelas nem de dentro do meu peito, essa velha alma minha que já cansou dos seus constrangimentos. Só um bafo quente, uma estufa, atmosfera que faz o corpo inteiro grudar e eu nem me aguento de tão perto de mim que estou. E de mim não posso sair.
Mas, bem, eis que nessa noite quente estava eu olhando pela janela da sala e vejo um vulto preto. Não, não era espírito, era só- ou muito- a minha cachorrinha olhando fixamente para o portão de casa, esperando a minha irmã chegar para poder dormir em paz. Mesmo grudada no chão e não conseguindo pensar em nada além do fato de que essa quentura me deixa mais preguiçosa e inquieta, eu me deti naquela cena. E senti que O Deus, não o Deus que mora nas nuvens nos céus, mas o Deus do meu Mundo, tinha finalmente me mandado um pouco de frescor, de vitalidade e de juventude. Juventude e vida porque o amor é sempre jovem e sempre vivo, e fresco pois sempre esfria a alma quando o corpo recebe o inferno. E porque sempre, invariavelmente, até a sua morte, a minha cachorrinha ficaria ali, olhando pela janela até a minha irmã voltar. Porque mesmo fechando os olhinhos de tanto sono e de tanto calor, ela ainda espera, e o amor espera, nesses dias de verão e em qualquer outro, um pouco de ar fresco, vivo, ar em movimento.
Porque quando olhei nos olhos pretos e fundos desse serzinho, eu vi meu espírito refletido. Acredito, portanto, ou mesmo sem verossimilhança alguma, que o amor nada mais é do que uma junção de naturezas que se aguardam. A alma nada mais é do que a junção de naturezas distintas, todas postas em um corpo só, em um espírito que em toda a sua egocentricidade se divide. O Deus do meu Mundo nos fez tudo, mas nós nos dividimos para não ter medo de viver o Todo. E se o mundo é essa junção de almas e de naturezas, eu nem sentia mais medo nenhum. Nenhum medo de ser engolida pelo mundo porque ele me guarda. E se ele me guarda, eu não posso morrer porque o tal universo cheio das coisas viraria um universo sem mim, e, portanto, ele não pode me engolir porque já estou dentro dele. O máximo que poderia acontecer era ele me cuspir para fora, mas aí tanto faz porque ele perde um músculo, um fragmento minúsculo mas que poderia distorcê-lo. O mundo é um espírito Maior narcisista, que guarda vários outros espíritos narcisistas, e dentro desse mundo que conhecemos existe um submundo que se chama amor, e o amor não é o engavetamento das almas como o mundo é, o amor é o aguardo de duas presenças. Quando duas naturezas se unem e festejam juntas o nascimento de uma outra repartição do mundo. É o amor esse aguardo na janela morrendo de sono num puta calor que tira o mundo do lugar. O mundo só se move porque as almas amantes saem do mundo e a ele retornam. O amor é a força movedora, Aristóteles, esse era o Motor Imóvel. Ou o calor finalmente me tirou as rédeas da sanidade mental.
Eu dormi no chão aquela noite, pensando nessas coisas. Quando acordei a minha irmã já tinha chegado, e as duas, ela e a minha cachorra, estavam dormindo. O mundo havia retornado aos seus eixos. E eu não me cansava de olhar.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
É de lágrima
Eu poderia apenas estar escrevendo uma crônica, mais uma qualquer, nesse véspera de feriado em que eu tive um tempinho para pensar. Poderia ser apenas eu, mais uma vez, entediada, mas não. Essas palavras são mais do que isso. Ontem eu ouvi de uma das pessoas mais especiais da minha vida o comportamento mais preconceituoso proveniente da representante da Instituição onde eu estudo. Minha amiga é, antes de tudo, maravilhosa, sorridente, atenciosa, carinhosa, inteligente, ética, respeitosa. Bela, enfim. Belíssima. Digo isso porque eu poderia começar dizendo que ela é homossexual, entretanto ela é muitas coisas antes de ser homossexual. Antes de ser homossexual, ela é a pessoa que sorri pra mim e a minha alma se abre. Antes de ser homossexual, ela tem um sorriso lindo. Antes de ser homossexual, ela tem um nome, uma casa, um cachorro. Antes de ser homossexual, ela tem um caderninho em que faz uns desenhos super legais. Antes de ser homossexual, ela faz os outros se divertirem com a sua presença. Antes de ser homossexual, ela tem uns cachinhos muito lindos, super legais. Assim como o fulaninho da esquina, que antes de ser heterossexual, é muitas coisas antes.
Mais do que quem se ama, o importante não é saber amar? O importante não é ser educado com as pessoas, ser conveniente, deixar os outros em paz quando eles precisam de paz? Não? Então eu não entendo. Então eu não sei mesmo se eu vivo no Fantástico Mundo da Carolina ou se o mundo é tão horrível assim mesmo. Porque, no Fantástico Mundo da Carolina, o importante é saber amar, amar as pessoas, os bichos, as plantas, o ar, qualquer coisinha. Se eu beijo um macaco, uma menina, um menino ou um cavalo, o fundamental não é o fato de que eu não saio por aí ofendendo os outros, matando, estuprando? O fundamental não é aquela coisa boa que a gente sente antes de dormir porque tem alguém que nos ama? Você aí, heterossexual, irmã, freira, padre, papa, o que for, não acha que tem o direito de sentir o quentinho no coração porque tem alguém te dando a mão? Irmã, Deus não te dá a mão na hora que você vai dormir? Você não se sente feliz? Então por que a minha amiga que antes de ser homossexual é um ser humano maravilhoso não pode sentir uma coisa boa no peito porque alguém a ama? Por que o seu Deus não pode amá-la? Ela é diferente de você até que ponto? Que eu saiba os ossos são feitos de cálcio e o corpo é revestido de pele. Que eu saiba se enterram todos no cemitério, um ao lado do outro, homossexuais ao lado de heterossexuais ou ao lado de Irmãs, enfim, pessoas ao lado de pessoas. Não é assim? Então qual o problema? Qual é a dificuldade? Por que as pessoas, frente a minha indignação, vivem dizendo que “é assim mesmo, o preconceito, tudo vai ser sempre assim”? Por que é assim? Eu não concordo. No Fantástico Mundo da Carolina as pessoas tinham que ser mais felizes, que se amar mais, que desejar que todo mundo fosse amado.
Por que os outros se odeiam? Por que as pessoas passam mais tempo odiando umas às outras, buscando expulsá-las de escolas porque tem um cabelo verde, azul (e uns cachinhos lindos), porque namoram com uma menina e a abraçam em frente à faixada de uma escola católica? Por que o Deus de vocês é assim? Por que Deus tem que ser machista, sexista, preconceituoso, igual vocês? Deus não deveria ser um exemplo a ser seguido? É por isso que o mundo é desse jeito, porque as pessoas ficam inventando Deus pra odiar todo tipo de gente, então isso dá o direito das pessoas se odiarem umas às outras. Não, não, não mesmo. Se existe Deus, a todos ele ama porque somos todos feitos de ossos que são feitos de cálcio. Por que eu tenho que me conformar que um simples andar de mãos dadas seja tamanho insulto? Por que eu tenho que aceitar que Deus é assim? Deus não é assim, que droga! O DEUS DO FANTÁSTICO MUNDO DA CAROLINA A TODOS AMA, E DEVERIA SER ASSIM, SE DEUS É “HUMANO”, ENTÃO QUE VOCÊS FAÇAM DELE UM REFLEXO BOM DA HUMANIDADE!
Porque a minha amiga, antes de ser homossexual, é minha amiga. E porque antes da minha sexualidade eu sou gente, ela é gente, nós temos desejos, paixões, tristezas, necessidades. Eu não aceito que ela seja tratada como o vírus HIV nos anos 80. É ela quem coloca um sorriso no meu rosto, por que será que eu deveria me conformar com o Papa, o que for, tirando um sorriso do rosto dela?
Não é justo. E você aí do outro lado dessa tela pode até pensar “a vida não é justa”. Não, não é, mas deveria ser. Quando eu era criança eu sonhava com um mundo onde sempre fosse Natal. Onde todo mundo se amasse igual no Natal. E eu fazia cartinhas pro papai Noel pedindo presentinhos, mas hoje eu queria pedir, papai Noel, dê um pouco mais de sabedoria e tolerância para as pessoas. E para a minha amiga e todas as pessoas que, por infortúnio, diariamente são ofendidas, espancadas, humilhadas, um pouco de paz. Eu não sou mais criança mas eu ainda sonho com um mundo em que todo mundo se ame igual no Natal, todos os dias.
Essa escola não me representa, assim como tantas outras coisas não me representam. Irmã, pessoas conservadoras ou o que seja lá que vocês forem, eu espero, do fundo do meu coração, que o Deus de vocês deixe de existir, porque Ele entristece as pessoas.
O Deus do Fantástico Mundo da Carolina a todos ama. A todos respeita e de todos cuida.
O meu Deus te ama, Kai. E ele quer ver você rindo a toa.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Infinito
No dia em que você foi embora pela terceira vez naquele mês, eu pisei forte no chão da minha casa como os soldados na Segunda Guerra mundial e caí na minha cama como um bicho muito pesado que não tem noção do seu peso. Foi aí que, cansada das pessoas, comecei a tagarelar, meio sem voz, com a minha cachorra. Até que, em dado momento, eu lembrei com pesar que ela já estava lá meio velhinha e logo ia me deixar também e fiquei com uma raiva tão grande do mundo que nem sei se existiria alguma coisa depois daquilo. Eu nem sei. Olhei novamente para ela e acho que a pobrezinha estava chorando. Ou talvez eu. Sei lá, me bateu uma baita pena de mim que estava limitada a minha condição de gente, e amando tanto um animal que logo ia morrer que pensei em me jogar em qualquer lugar só pra que ninguém olhasse mais pra mim ou nunca mais me deixasse olhando para as minhas próprias mãos em busca de alguma coisa que eu juro, estava ali, mas sumiu. Minha cabeça doía de cansaço e a minha cachorra continuava olhando pra mim. Foi aí que fiquei com raiva dela também porque me vem esse ódio enorme de todas as coisas que me limitam a um amor tão grande e tiram a razão do meu corpo como se retira um órgão. E a tirei do quarto. E fico olhando as minhas mãos me odiando também por amar assim, não com a pureza de uma criança, mas como o Ghandi que fez greve de fome, como o louco que foge do hospício procurando o sol, procurando o sol, em busca do sol. Porque a vida quer me engolir, mas eu conseguia suportar porque com você a vida arde de uma angústia enorme como um náufrago no meio do mar que só vê imensidão. E é avassalador, mas eu conseguia aguentar as presas enormes da vida. Mas agora eu sinto que ela vai acabar comigo, e trouxe a minha cachorra de volta pro meu quarto porque mesmo com pouco tempo de vida ela é a única coisa que apazigua o inferno do meu coração e que, mesmo se eu abrir a porta, não irá embora. Porque ela não é um pássaro e sim um animal cujo coração é a sua própria liberdade e isso o faz ficar. E dormi a noite inteira abraçada com os pelos brancos, desejando ao meu peito liberdade infinita. Dormi quase como se eu nunca fosse acordar, e acordei com o sol do louco no meu rosto. E só não o odiei também porque a vida quase me engole mas não me destrói. E porque meu peito sempre dói como um admirador do mar desesperado para achar a praia, mas é a única coisa que me faz continuar vivendo.
sábado, 31 de maio de 2014
Where the heart wanders
Suspira o vulto do vento
E suas volúpias voláteis levianas
Contra as bocas rachadas e santas
Murchas dos homens desumanos
Voa o vento veloz vivo
Parindo do peito um pássaro de polida luz
Cujos espectros externos cheios de aspectos sombrios
Velejam cansados e tortos às duras penas e portas
Entreabertas e profanas do meu coração
Mira-me um vizinho tom de vinho mágico
Adormecendo as pontas finas dos meus dedos e
Rezando-me um beijo doce e cálido de sangue no
Vasto vulgor eterno do céu
Racham os lábios pálidos dos homens desumanos
E num frescor feroz de fúria
Escorre o mundo diluindo devagar os crânios
Restantes do fogo e um ardor manso, de nada
É a morte, meu amor, e a morte
Tem cheiro de vida
A nos sobressaltar como um cálice de vinho
Esvoaçando as nossas cabeças ao som
Da música celestial
Assim como o vento me sopra
E de nada me entristecem os vultos
Que me contam uma breve e harmônica
História de amor
É a morte, meu bem, e a morte
Tem cheiro de vida.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Morfina
A solidão não deixa rastros. Não possui o dom do perdão e
não é perdoada por ninguém. É a visita insistente que faz
com que coloquemos veneno em seu chá pra que bata as botas. Mas ah, não tem
dessa com a solidão. Ela se nutre do pior que temos a oferecer. Como as baratas. Suga o veneno, bebe o chá,
pede mais uma xícara, e começa a visitar-nos com mais frequência. Senta-se, ou
melhor, apossa-se da cadeira mais linda da nossa casa. E os dias passam. Ela
torna-se a mais nova inquilina. E não há nada que possamos fazer, pois
desistimos de enterrá-la a força. A solidão toma afeição por nós quando
aparecemos para ela com paus e pedras, tentando vencê-la, ou quando nos
calamos. Vil, mas cheia de boas intenções, diverte-se sadicamente com o nosso
destempero. Com o tempo outros convidados chegam, mas a vontade de atender
terceiros é nula, afinal, a solidão engorda, vira uma mulher obesa. Quebra as
cadeiras. As pessoas não têm onde se sentar, e a vergonha assola todo o lugar, como uma
poeira estranha. Porque não importa a relação que tentemos estabelecer, a
sensação é de distância. Ninguém nos toca porque a mulher gorda está parada na
nossa frente. Possessa e possessiva, ela não vai a lugar algum. Tudo bem. Não
faz diferença. Você também não vai a lugar algum. E com o tempo deixamos a
sinceridade conosco e para com o mundo de lado, porque o universo e você estão
separados por uma imensa parede de ferro. E no momento se está tomando chá com
a velha gorda amiga quebrando as cadeiras e deixando-nos surdos e cegos e mudos.
Tudo se envolve em uma densa neblina. A vida fica meio engraçada, pois ninguém
te descobre. As pessoas só escutam o que querem ouvir. E é exatamente isso que
se diz. E se diz sem ter certeza de que as palavras chegaram. Não há som. A
densa neblina transforma-se em um aconchegante cobertor quando está frio. E a
vida fica mais calma. Nada se teme, porque a mulher gorda protege a casa com
unhas e dentes. Só que um dia ela fica
grande demais e vai embora. Mas a névoa fica. É tudo que fica. Nem o medo nem a
coragem, nem o amor nem o ódio. Apenas a solidão e a morfina e isso é tudo.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Eu nunca vou voar
As pessoas não são pessoas e eu nunca vou voar. Os pássaros olham-me, de uns tempos pra cá, com um certo ar de deboche. Se eu não posso voar, por que tenho olhos para ver o céu? Olho o céu e não posso voar. Absolutamente triste, eu fico. Como se além de não ter asas eu também não tivesse pés pra pisar no chão. A gravidade é demais pra mim. Sou aleijada na alma e por isso me falta o toque simples de quem pisa no chão com a delicadeza do ser, mesmo sabendo que não pode voar. Quem criou as regras desse jogo? Eu não quero mais brincar, não concordo, não quero mais saber. Perdi faz tempo, rio com as pessoas, mas nunca entendo a graça. Faz-me bem a incompreensão da alegria rasteira e geral, faz-me tão bem quanto uma navalha escavando o pescoço. Se existe uma parte podre minha que nem o vento nem o tempo nem o melhor dos sorrisos e das intenções pode me tirar, então por que não posso voar? Devo conviver o resto de minha vida com uma angústia que não consigo distribuir? Que me faz ter medo das pessoas que não são pessoas, dos pés delas que tocam o chão, das suas cabeças e do horror das suas palavras. Devo viver o resto da vida com horror da vida, com horror das pessoas que se aproximam demais e me olham com olhos sombrios? Devo viver uma eternidade sem conseguir me comunicar com o mundo? Como viver sempre retraindo e sufocando, respirando rápido demais pra não perder o ar, correndo dos lugares cheios? Se meus pés mal tocam o chão, como posso ir em busca do que é bom, se nem o bom é bom o suficiente para livrar-me do tão ruim. Se as pessoas não são pessoas e estão sempre comprando novos carros e novos apartamentos e novas vidas e dizendo que subiram na vida. Eu não quero subir na vida. Eu não quero que ninguém preste atenção em mim. E acordam pisando em solo infértil, e dormem como se não pudessem morrer. E temem a morte como se a vida não fosse assustadora. Porque não olham com atenção, porque não sabem quem são, porque não pensam antes de dizer, porque matam, porque torturam, porque negligenciam, porque ignoram. As pessoas não são as pessoas e eu tento fugir delas, mas sempre me encontram. Elas são como a gravidade e me tiram o sangue do rosto. Eu tenho medo de ser uma pessoa. Deus me livre, Deus me explique, por que eu não posso voar? Assim eu me livraria dessa gente que brota do chão como erva daninha, gente que se molda sem se construir. Eu não teria medo dos rostos feios deles e das suas verborragias medonhas. Deus que me livre de ser uma pessoa. Eu preferiria ser um rato, é mais digno, menos pobre, menos imundo, pelo menos eu não teria que brincar desse jogo infernal. Até morrer seria mais descente. Mas se eu tenho a forma de um ser humano eu provavelmente tenho a obrigação de ser feliz. Por que? Enquanto isso há uns anos atrás a Segunda Guerra Mundial e a Ditadura Militar, por que mesmo eu tenho que ser feliz se eu tenho medo dos seres humanos e em todo lugar eles estão? Todos eles me empurrando motivos e piadas e eu quero cuspi-los, quero vomitá-los com todas as minhas tripas e com todo o meu sangue que a humanidade tirou, junto com meu coração, inteiro e de uma vez só. Eu quero vomitar. Eu tenho horror em viver. Não tenho asas nem pés, então Deus, por que não me fez outra coisa? Por que eu tenho que viver em um corpo que não é meu? Por que tenho que sofrer o desgaste do mundo enquanto todos sorriem nas calçadas? Eu gostaria muito de me reduzir a nada, tem remédio pra isso? Eu cansei de me ser porque esse é o único mundo que eu consigo ver e não posso mudá-lo porque eu não me sou outra coisa. Cansei de me ser se ninguém é capaz de me amar porque a minha tristeza vai diminuindo-me a apenas uma luz opaca e ninguém consegue mais me abraçar, pois a falta de vida toma conta do meu corpo. Se não posso voar e também não tenho pés, ao menos espero que não exista vida após a morte, pois a morte tornou-se a vida. Não volto a esse mundo nunca mais. Nem se fosse pra voar. Nem voltando como o mais belo dos pássaros. As pessoas na Terra continuariam olhando pra mim e eu sinto um pavor tão grande que vou dormir.
segunda-feira, 10 de março de 2014
Carta
Querido,
venha me salvar. As lâmpadas não acendem mais. Acho que cortaram a luz. São muitas contas a pagar- não que me falte dinheiro, falta força de vontade. Ou. Não sei. Aquele algo que você dizia fazer o corpo funcionar. Eu perdi, você achou? Você costumava achar qualquer coisa pra mim. Perdi coisas mais importantes do que sapatos ou as chaves, devo confessar. Nunca mais fiquei ansiosa pra fechar as portas do apartamento, com medo, você lembra? Nunca mais depois que você foi embora. Se você me visse agora, arrastando os pés por esse apartamento porque dói demais pisar no chão, será que você me explicaria o que houve? Ou o que não houve? Durmo de portas e janelas abertas na esperança de você vir brigar comigo falando mais uma vez que eu sou desapegada da vida. Precisava ver agora. Mas não entrou ninguém aqui, uma pena, nem você. Passo a maior parte do dia dormindo de olhos abertos, às vezes eu queria que alguém chegasse gritando, socando as paredes, chutando os móveis, qualquer coisa pra eu despertar. Virei um fantasma de você, querido, onde estão as respostas? Você me deixou sem nada. Todas as manhãs quando acordo, me pergunto se você ainda toma seu café forte, ou se por um milagre aprendeu a gostar de leite. Nunca entendi. Às vezes eu preferia que você tivesse morrido. Por que teve que ser eu? As pessoas dizem que você não gostava de mim. É verdade? Porque as portas do armário continuam abertas sem nada dentro do jeito que você deixou. Acho que a minha mãe varreu a casa, eu lembro de estar tudo sempre tão imundo aqui. Passei seis meses dizendo pra minha mãe e pro porteiro que você tinha ido em busca do motivo que eu disse pra você que queria encontrar, eu tive certeza de que você tinha ido achar pra mim, por uns seis meses ou seis anos eu tive certeza. Não consegui abandonar a casa, você parou a nossa vida ao meio e eu fiquei buscando pistas nesse cubículo. Nem um bilhete você deixou. Eu deveria te odiar, mas nem isso você me permitiu. Fiquei tentando encontrar o motivo que você não trouxe. Cortaram a luz, querido, mas minha mãe vai pagar a conta pra mim. Ela sabe de tudo e eu desaprendi tudo. Acho que daqui uma semana vou embora. Cheguei a arrumar minhas coisas outro dia, mas não achei a sandália que você me deu de aniversário e perdi a coragem. Não me movo daqui sem achá-las. As pessoas não entendem. Elas acham que você não gostava de mim. Vou embora porque nem eu sei. Preciso encontrar tudo que você levou de mim. Muito mais importantes que as sandálias ou as chaves. Eu preciso do motivo, querido, e agora finalmente sei que não posso mais contar com você.
sábado, 8 de março de 2014
A salvo
As vozes as cores os cheiros
Nada existe pra mim
As xícaras os livros as colchas
Nada existe pra mim
Os vultos as pessoas as nuvens
Tudo passa por mim
As letras as frases os gritos
Jamais saem de mim
A vida essa coisa estranha
Vida eu sinto muito
Mas você também não existe pra mim
O que sobra são
Pratos copos prateleiras
Que também não existem pra mim
E toco tudo e cheiro tudo
E os vultos vão passando e se curando
Se curando se passando
Dessa triste solidão que é a vida
Os garfos as facas nuances entrelinhas
Nada fala por mim
A vida essa triste eterna solidão
Das coisas por elas mesmas
E tudo sozinho e tudo apodrecendo
E duas mãos entrelaçadas e muito
Dióxido de carbono
E tudo sem sabor sem toque
Sem refrão sem suavidade sem nada
E os copos xícaras talheres
Sem nada
Nada existe pra mim
Sou o vulto do mundo
E ninguém sopra vida em mim
Ninguém me salva de não existir
Mas hoje olho os tapetes janelas cortinas
Sou todos eles e sonho e sonho e sonho
E estou a salvo
Nada existe pra mim
As xícaras os livros as colchas
Nada existe pra mim
Os vultos as pessoas as nuvens
Tudo passa por mim
As letras as frases os gritos
Jamais saem de mim
A vida essa coisa estranha
Vida eu sinto muito
Mas você também não existe pra mim
O que sobra são
Pratos copos prateleiras
Que também não existem pra mim
E toco tudo e cheiro tudo
E os vultos vão passando e se curando
Se curando se passando
Dessa triste solidão que é a vida
Os garfos as facas nuances entrelinhas
Nada fala por mim
A vida essa triste eterna solidão
Das coisas por elas mesmas
E tudo sozinho e tudo apodrecendo
E duas mãos entrelaçadas e muito
Dióxido de carbono
E tudo sem sabor sem toque
Sem refrão sem suavidade sem nada
E os copos xícaras talheres
Sem nada
Nada existe pra mim
Sou o vulto do mundo
E ninguém sopra vida em mim
Ninguém me salva de não existir
Mas hoje olho os tapetes janelas cortinas
Sou todos eles e sonho e sonho e sonho
E estou a salvo
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Três e sete da manhã
São 3:07 da manhã. O casal está dormindo na cama. Ela acorda. Cutuca o marido: acorda, Paulo, preciso falar com você, é urgente! Ele, meio sonâmbulo, meio acordado:
“é, eu também acho, eu também acho, Maria, o nosso casamento tá uma merda mesmo!”.
O que, Paulo, ela vocifera baixinho. Eu ia pedir pra você partir um coco pra mim. Deu vontade. Vai lá, por favor.
“Cala a boca, mulher, tá tarde, eu trabalho amanhã.”
Eu também, vagabundo, e o que você ia dizer do nosso casamento?
“Que casamento, Maria?”
Cala a boca e vai buscar o coco pra mim.
“Eu não vou”, e olha pra ela cansado como quem diz que vai virar pro lado e dormir pra sempre.
Então tá, mas eu estou grávida, Paulo.
“De quem?”, ele se vê perguntando, erguendo-se.
De você, seu retardado, de você! Ele se senta então, sabendo que ela não ia deixá-lo dormir tão cedo.
“Mas Maria, a gente nem faz mais amor”.
Amor a gente não faz mesmo não, mas você bebeu a garrafa de vinho toda outro dia e a gente fez direito. A gente não fez amor, foda-se o amor Paulo, a gente só fez. E eu estou grávida, vai buscar o coco pra mim.
“Maria, se você estiver mesmo grávida, quem faz as malas, eu ou você?”.
E ir pra onde, imbecil? Nós vamos ficar aqui.
“Nós quem, Maria? A gente existe?”.
Vai dormir, Paulo, eu vou lá abrir o coco pra mim e pro nosso filho já que você não é o homem o bastante. Vê se amanhã você toma seu remédio porque eu gosto mais dele do que de você.
"É mentira”, ele disse baixinho, sem ter certeza de que ela tinha escutado.
É mentira mesmo, seu filho da puta, mas você não merece ouvir a verdade! Paulo dormiu. Maria foi até a cozinha, abriu o coco, não comeu, perdeu a vontade, tomou o remédio, passou a mão pelo ventre, dizendo boa noite ao filho, talvez existente, talvez não. E dormiu. Nenhum dos dois acordou. Mas eles levantaram e escovaram os dentes.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
A paz do freezer e pensamentos aleatórios
Então a vida é como o freezer e ficar olhando pros gelinhos grudando nos cantos. O gelo está sempre ali e ali e ali. E eu gosto dessa facilidade que existe: se ele vira água a culpa não cai sobre ele, a maldita culpa. Se ele fica no freezer, nenhuma mudança, ótimo. Um gelo não sente frio, o gelo É o frio, então a vida é simples como um gelinho idiota olhando pra mim com cara de nada, porque um gelo é um monte de nada que vira água e depois evapora, aí vira um monte de nada nada nada e depois vira água de novo. Inútil. Mas confortável. Não existem muitas opções, é sua natureza. Eu queria ser um gelinho, porque olhando ali, meio abobada, meio reflexiva, com a cara dentro do freezer aberto e sentindo um absurdo prazer de pensar que a vida é todo o gelo ali, as coisas como são e ninguém poder fazer nada porque o frio da vida é a própria vida. E a natureza de tudo está na própria natureza de tudo. E me senti como um gelo derretendo lentamente, asfixiando dentro de um copo de refrigerante, e leve leve leve leve, querendo voltar pra paz do freezer. Porque lá as coisas vivem antes de morrerem de novo. E porque lá o tempo para, mesmo eu não acreditando muito nesse negócio de tempo. E lá você é um gelinho, nada de especial, ninguém pra ser, nenhuma obrigação de ser nada, além daquilo grudando nas paredes, nada de luz do sol. Ninguém quer derreter. Mas o gelo pode ressuscitar e eu gostaria de acreditar que não, que a gente pudesse ficar pra sempre e sempre e sempre dentro do freezer. Parados no tempo, no espaço, com qualquer idiota olhando pra gente e a gente não sendo nada. E não se sente frio. E não se sente o calor porque o calor não existe, é a falta do gelo próprio. Aí a pedrinha derrete e nem sente calor, vira calor, um frio a menos. E todo o resto suando e água por aí virando gelo de novo. A paz do freezer. E a gente sempre se transformando em alguma coisa e voltando a ser o que era. E o ciclo todo se repete e nada da paz mundial, só a paz do freezer e de cada um sendo o frio do seu próprio gelo. E nada.
sábado, 4 de janeiro de 2014
O motivo (a falta dele)
Eu vejo uma garotinha parada à minha frente. Pequena e
indefesa, mas parece bloquear o caminho. Olho pra ela. Ela olha pra mim como se
eu não estivesse ali. E a gente não diz, mas se entende. Não saberia dizer
quantos anos ela tinha. Cada vez que eu piscava, ela parecia uma menina diferente.
Ora sorridente, ora com uma melancolia estranha nos olhos. Parecia tão pequena
e andava por aí como se fosse grande. Jovem, criança, um abismo no mundo.
Pulava pra saber se podia voar ou pulava pra saber se a queda doía. No fundo
sempre quis saber o que existia do outro lado. Seja qual for. Ela não me
contou, mas eu soube. Aquela menininha ali, parada na minha frente, muda, e ao
mesmo tempo com o sorriso mais escandalizado do mundo, divertindo a todos com
aquela graça e jeito de ser. Sabia muito da vida, mas a vida não sabia nada
dela. Ninguém sabia. Os dias mudaram e ela foi tentando se moldar ao que queria
ser. Não deu certo, eu acho. Durante muito tempo tudo que ela soube fazer era
deixar os outros felizes. Deixar que rissem dela, e rindo dela mesma. O
problema é: quem saia ganhando e quem perdendo? Com o tempo o riso escandalizado
perdeu o sentido. Do que ela tanto ria? Ria sempre e sempre e sempre. Não tinha
fim. A vida não era tão engraçada assim, no final das contas. E agradar as
pessoas tornou-se desagradável. Por quê? Pra quê? No fundo nenhuma daquelas
pessoas sabia quem ela era. Daquele abismo de gente. Ou pula, ou pula. Sem
opção. A vida era boa demais pra ela ficar sempre no mesmo lugar. E o resto do
mundo? E o resto das pessoas? Talvez por isso risse tanto. De nervoso. De
dúvida. O mundo do nada era grande demais e as pessoas muito imprevisíveis.
Será que riam dela porque ela era engraçada? Será que ela era mesmo louca como
todo mundo dizia? Ou será que riam dela porque ela era diferente das outras
pessoas, porque talvez, pra gostarem dela, ela tinha de promover bizarrices?
Seria que ela queria ser a louca, a engraçada o resto da vida? Do que servia
isso tudo? Não queria ser diferente. Queria ser igual a todo mundo. Não ter que
impressionar ninguém com suas bizarrices pra se sentir amada. Aquilo nem era
amor. As pessoas, os amigos, a usavam pra se divertir. Inesgotável fonte de
diversão. Riso na certa. E? Nem tudo é tão engraçado. Não era legal ter todo
mundo rindo dela 100% do tempo. Pra quê? Por quê? O mundo era grande demais e
ela parou de rir de si mesma. Não tem graça. Não tem graça. Eu não tenho graça.
Essas pessoas não riem para mim, elas riem de mim, pensava. Será que era mesmo
bizarra ou será que tinha aprendido a ser assim, o assim era mais cômodo,
porque assim todo mundo a achava o máximo, e talvez ela não fosse nada daquilo.
Ou pelo menos aquilo não fosse tudo que ela era. Uma risada ambulante. Um
caminhão de lixo. Risada. A merda do mundo. Risada. Olha aquela ali. Risada.
Olha pra mim. Risada. Vamos deixar a louca ali sozinha e fingir que a gente sumiu.
Risada. Vamos pregar uma peça com a menina bizarra, ela nunca se importa. Mas
um dia ela se tocou que não queria ser assim pra sempre. Tinha mais pra dizer
do que o som inexpressivo de um riso maximizado pela falta de resposta dizia.
Eu olho pra essa menininha, parada à minha frente. Ela não pode me ver, ela não sabia que um dia eu existiria, ela não faz ideia de quem eu sou hoje. Ela não pode me ver. Mas ela ri de mim.
Porque talvez.
Eu não seja hoje.
O que ela tanto queria que eu fosse.
Porque talvez eu não tenha conseguido voar quando resolvi pular do abismo.
Talvez porque.
A menininha ria tanto.
Que eu cansei de rir sem vontade.
Não sou obrigada.
E talvez eu não seja hoje o que ela sempre quis que eu fosse, talvez não tenha conseguido tantas coisas, conquistado tantas coisas. Ou talvez eu tenha. Ela não me vê, mas ri de mim. Ri fielmente de mim. Um riso escandalizado. A cidade toda parou pra ver. Ela rindo de mim. Como se eu não fosse parte dela. Como se fosse uma parte de mim que nunca tivesse existido. Como se ela não soubesse que eu um dia existiria. Porque ela não sabia. E eu rio dela, um riso escandalizado que a cidade toda parou pra ver também. E eu rio dela porque ela ria tanto do mundo o tempo todo e das pessoas o tempo todo e distribuía sorrisos e eles eram inúteis e hoje nada tem tanta graça e o mundo não tem mais graça e eu não tenho mais graça. Não consigo rir de mim, eu só rio dela por pensar que talvez, um dia, eu fosse rir de mim mesma de verdade. Um sorriso verdadeiro, de orgulho, porque eu desvendei o mistério do mundo, porque eu fiquei grande, porque eu nunca mais seria a menininha que deixava os outros rirem dela. Eu nunca deixei mesmo. Mas também nunca mais ri de mim, alegre, sem saber, porque eu era bizarra, porque eu era louca, e mesmo que eu fosse bizarra e louca pra minha idade eu via um mundo que as pessoas não viam. Um mundo mágico e não existe porra de mundo mágico nenhum hoje. Porque eu via o mundo com olhos encantados e hoje eu rio sem parar da menina. E ela morre de rir de mim, rola no chão, como nos velhos tempos. Porque talvez eu ainda seja a louca e a bizarra pras pessoas, mas hoje porque eu vejo o mundo cheio de detalhes, de forma minuciosa. O mundo do jeito que ele é. Do jeito que ele é pra mim. Não um mundo mágico como antes. Só o mundo que me reflete. E eu rio do mundo, e ele ri de mim. E eu rio da menininha, e ela ri de mim. Porque ela não sabia que um dia eu existiria, mas eu sei que ela sempre vai existir. Porque ela era louca, bizarra, e esperta. E talvez porque eu não tenha mudado tanto. Só tenha parado de rir de tudo. No fundo eu só queria que as pessoas me levassem à sério, prestassem mais atenção em mim e não em qualquer uma que eu estivesse aprontando.
Talvez.
Talvez.
Talvez.
Eu nem sei se ela gosta de mim. Ela nem olha mais pra mim. Me esqueceu antes de me conhecer.
E vai dando essa hora.
Aí eu nem sei.
Eu era a menina que ria de tudo.
A menina que achava uma tremenda graça no mundo.
E hoje eu sou a menina que busca alguma graça no mundo.
Usei toda a graça de uma vida toda na infância e descobri que o mundo não era tão mágico assim como era pra todo mundo naquela época antes.
E hoje minha alma é velha. Cansada do mundo. Gastei a graça toda.
Era tão louca e bizarra por achar o mundo o lugar mais engraçado.
E hoje sou louca e bizarra por não conseguir achar muita graça no mundo.
Na fome. Nas crianças. Nas mulheres. Nos homens. Nos motivos.
Na falta deles.
Eu não tenho um motivo pra ter deixado de achar graça no mundo: eu virei um espelho do mundo. Eu não queria achar mais graça de mim pelo fato de que todo mundo sempre achava graça de mim e o mundo ficou sem cor. Sem som. Sem graça. Sem porra nenhuma.
Porque a fome e as ruas sujas e os caminhões de lixo e toda a podridão do mundo.
Não tem nada de engraçado aqui nesse planeta Terra.
Eu percebi antes de todo mundo.
Vai dando essa hora.
E eu nem sei.
E eu não tenho um motivo. E todo mundo quer a merda do motivo e eu tenho vontade de mandar todo mundo pra puta que o pariu porque o mundo perdeu a graça pra mim antes de ter perdido pra todo mundo. E eu sempre estou dois passos à frente na desgraça desse lugar, na desgraça de mim e do mundo. Ri demais. Ri muito. Descontroladamente. As pessoas me achavam o máximo por isso. Ninguém me acha o máximo agora. E eu prefiro assim. Porque assim eu posso ser eu. Aquilo que a menina nunca foi. Talvez fosse isso que ela queria que eu me tornasse. Como eu poderia saber? Alguém tinha que receber a culpa dela ser tão diferente, de ninguém a compreender, de ser um balão inflável que só incha pra dentro e pra dentro e pra dentro. Quem recebeu a culpa fui eu. E eu aceito numa boa. Sempre foi minha. A culpa e a felicidade. O riso e a angústia. Duas partes de mim, o passado e o presente.
Porque vai dando essa hora.
E eu nem sei.
Porque a angústia me apunhala pelas costas.
Como se eu sempre estivesse esperando ela me atacar e me jogar na cama e ficar por lá.
Como se eu soubesse que a angústia é o peso que se paga por rir tanto.
O preço que se paga por querer saber tanto.
Por saber tanto.
E por sofrer tanto.
Porque ninguém tem o direito de ser infeliz.
Porque no fundo a menina sabia que só sendo feliz e alegre e fazendo todo mundo feliz e alegre pra ser amada.
Porque ninguém ama um abismo de gente.
Porque ninguém chega a conhecer o outro lado do abismo.
A menos que pule.
É o preço que se paga por ter rido tanto.
Se quem ri por último ri melhor eu nunca vou saber.
Porque eu ri primeiro de todo mundo saber.
E como.
Ainda escuto aquele som.
Distante.
Do outro lado do abismo.
Olhando pra mim.
Rindo pra mim.
Me chamando.
Mas eu não vou. Eu nunca vou.
Eu acho que eu não quero mais saber o que tem do outro lado.
Eu sou o outro lado.
E graças a Deus nunca mais vou rir de tudo e deixar as pessoas rirem de mim.
No fundo eu só queria a ingenuidade de novo. Eu olho pra essa menininha, parada à minha frente. Ela não pode me ver, ela não sabia que um dia eu existiria, ela não faz ideia de quem eu sou hoje. Ela não pode me ver. Mas ela ri de mim.
Porque talvez.
Eu não seja hoje.
O que ela tanto queria que eu fosse.
Porque talvez eu não tenha conseguido voar quando resolvi pular do abismo.
Talvez porque.
A menininha ria tanto.
Que eu cansei de rir sem vontade.
Não sou obrigada.
E talvez eu não seja hoje o que ela sempre quis que eu fosse, talvez não tenha conseguido tantas coisas, conquistado tantas coisas. Ou talvez eu tenha. Ela não me vê, mas ri de mim. Ri fielmente de mim. Um riso escandalizado. A cidade toda parou pra ver. Ela rindo de mim. Como se eu não fosse parte dela. Como se fosse uma parte de mim que nunca tivesse existido. Como se ela não soubesse que eu um dia existiria. Porque ela não sabia. E eu rio dela, um riso escandalizado que a cidade toda parou pra ver também. E eu rio dela porque ela ria tanto do mundo o tempo todo e das pessoas o tempo todo e distribuía sorrisos e eles eram inúteis e hoje nada tem tanta graça e o mundo não tem mais graça e eu não tenho mais graça. Não consigo rir de mim, eu só rio dela por pensar que talvez, um dia, eu fosse rir de mim mesma de verdade. Um sorriso verdadeiro, de orgulho, porque eu desvendei o mistério do mundo, porque eu fiquei grande, porque eu nunca mais seria a menininha que deixava os outros rirem dela. Eu nunca deixei mesmo. Mas também nunca mais ri de mim, alegre, sem saber, porque eu era bizarra, porque eu era louca, e mesmo que eu fosse bizarra e louca pra minha idade eu via um mundo que as pessoas não viam. Um mundo mágico e não existe porra de mundo mágico nenhum hoje. Porque eu via o mundo com olhos encantados e hoje eu rio sem parar da menina. E ela morre de rir de mim, rola no chão, como nos velhos tempos. Porque talvez eu ainda seja a louca e a bizarra pras pessoas, mas hoje porque eu vejo o mundo cheio de detalhes, de forma minuciosa. O mundo do jeito que ele é. Do jeito que ele é pra mim. Não um mundo mágico como antes. Só o mundo que me reflete. E eu rio do mundo, e ele ri de mim. E eu rio da menininha, e ela ri de mim. Porque ela não sabia que um dia eu existiria, mas eu sei que ela sempre vai existir. Porque ela era louca, bizarra, e esperta. E talvez porque eu não tenha mudado tanto. Só tenha parado de rir de tudo. No fundo eu só queria que as pessoas me levassem à sério, prestassem mais atenção em mim e não em qualquer uma que eu estivesse aprontando.
Talvez.
Talvez.
Talvez.
Eu nem sei se ela gosta de mim. Ela nem olha mais pra mim. Me esqueceu antes de me conhecer.
E vai dando essa hora.
Aí eu nem sei.
Eu era a menina que ria de tudo.
A menina que achava uma tremenda graça no mundo.
E hoje eu sou a menina que busca alguma graça no mundo.
Usei toda a graça de uma vida toda na infância e descobri que o mundo não era tão mágico assim como era pra todo mundo naquela época antes.
E hoje minha alma é velha. Cansada do mundo. Gastei a graça toda.
Era tão louca e bizarra por achar o mundo o lugar mais engraçado.
E hoje sou louca e bizarra por não conseguir achar muita graça no mundo.
Na fome. Nas crianças. Nas mulheres. Nos homens. Nos motivos.
Na falta deles.
Eu não tenho um motivo pra ter deixado de achar graça no mundo: eu virei um espelho do mundo. Eu não queria achar mais graça de mim pelo fato de que todo mundo sempre achava graça de mim e o mundo ficou sem cor. Sem som. Sem graça. Sem porra nenhuma.
Porque a fome e as ruas sujas e os caminhões de lixo e toda a podridão do mundo.
Não tem nada de engraçado aqui nesse planeta Terra.
Eu percebi antes de todo mundo.
Vai dando essa hora.
E eu nem sei.
E eu não tenho um motivo. E todo mundo quer a merda do motivo e eu tenho vontade de mandar todo mundo pra puta que o pariu porque o mundo perdeu a graça pra mim antes de ter perdido pra todo mundo. E eu sempre estou dois passos à frente na desgraça desse lugar, na desgraça de mim e do mundo. Ri demais. Ri muito. Descontroladamente. As pessoas me achavam o máximo por isso. Ninguém me acha o máximo agora. E eu prefiro assim. Porque assim eu posso ser eu. Aquilo que a menina nunca foi. Talvez fosse isso que ela queria que eu me tornasse. Como eu poderia saber? Alguém tinha que receber a culpa dela ser tão diferente, de ninguém a compreender, de ser um balão inflável que só incha pra dentro e pra dentro e pra dentro. Quem recebeu a culpa fui eu. E eu aceito numa boa. Sempre foi minha. A culpa e a felicidade. O riso e a angústia. Duas partes de mim, o passado e o presente.
Porque vai dando essa hora.
E eu nem sei.
Porque a angústia me apunhala pelas costas.
Como se eu sempre estivesse esperando ela me atacar e me jogar na cama e ficar por lá.
Como se eu soubesse que a angústia é o peso que se paga por rir tanto.
O preço que se paga por querer saber tanto.
Por saber tanto.
E por sofrer tanto.
Porque ninguém tem o direito de ser infeliz.
Porque no fundo a menina sabia que só sendo feliz e alegre e fazendo todo mundo feliz e alegre pra ser amada.
Porque ninguém ama um abismo de gente.
Porque ninguém chega a conhecer o outro lado do abismo.
A menos que pule.
É o preço que se paga por ter rido tanto.
Se quem ri por último ri melhor eu nunca vou saber.
Porque eu ri primeiro de todo mundo saber.
E como.
Ainda escuto aquele som.
Distante.
Do outro lado do abismo.
Olhando pra mim.
Rindo pra mim.
Me chamando.
Mas eu não vou. Eu nunca vou.
Eu acho que eu não quero mais saber o que tem do outro lado.
Eu sou o outro lado.
E graças a Deus nunca mais vou rir de tudo e deixar as pessoas rirem de mim.
E me sinto pequena como aquela menina.
E desisto de ser grande.
E fico fraca.
E ela olha pra mim.
A gente se abraça.
A gente vive assim.
Quando eu canso de mim, volto a ser a menina. Quando ela cansa de si mesma, ela sonha em ser eu.
E nós duas saímos ganhando. E nós duas saímos perdendo.
E eu rio dela. E ela ri de mim.
Ninguém ri de nós.
"Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você."
O abismo sou eu.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Não-humano
Estou contando os segundos. Parece que o relógio parou de
funcionar. Hoje as coisas só parecem. E passam por mim. Enquanto te espero
(como sempre), dou uma conferida no banheiro, quem sabe você não brotou por
entre as privadas e pias? Olho pra moça da lanchonete como se ela estivesse me
devendo alguma coisa. Eu não sei. Não consigo ficar quieta, senão vou sair
correndo. Tento lembrar quantos anos eu tenho, mas não tenho certeza de nada. O
momento presente me parece distante. Me sinto ridícula olhando o celular toda
hora pra saber o momento exato que você vai chegar. Quase como se pudesse te
ver pro detrás da telinha minúscula. Estou tremendo. Até a medula óssea. Mas
ajo tranquilamente. Tento sorrir pras pessoas. É hoje. Mas hoje parece que já
foi há tanto tempo. Não te vejo faz um tempão. Me sinto ridícula. Repasso
mentalmente. Você já tá no caminho. Se eu sair vazado dessa cadeira desse
shopping vai parecer mais ridículo ainda. Eu quero abrir um buraco no chão e
você nem chegou ainda. E aí você chega.
Ainda dá tempo de sair correndo? Os seus pés são muito lentos até mim e
enfim, você me abraça. Mas seus braços estão muito grandes pra mim. Ainda é melhor
do que nada. Era a minha quase felicidade de sempre misturada com o terror de
sumir nos seus olhos pretos olhos. Quase como se eles fossem sugar qualquer vestígio
de felicidade. Eu tenho medo de você por ter te amado tanto, pelo poder que
você sempre exerceu sobre mim. Eu nem sei se chegou a ser amor, foi quase uma compulsão.
Eu te chamava de paz e você sempre expulsou a paz. Realmente, eu sou uma pessoa
muito estranha. Você levava qualquer resto de vida de dentro de mim ao me
olhar, e eu me sentia tão viva. Tudo sempre foi tão mórbido e delicado. Sou
facilmente atraída por mistérios, mas hoje, aqui, andando no shopping com você,
procurando um banquinho, e você, receoso, como eu, tentando me abraçar pela
cintura, eu sinto que não existe mistério em você. Não existe nada que eu não
saiba, e talvez, por isso, uma tristeza grande tenha se apoderado de mim. Você é humano também, e eu sempre achei que você
era de uma espécie diferente que um dia ia me tirar de todo esse horror da humanidade e ser esquisito comigo.
Porque todos os seus remédios pra dormir. Porque todos os seus planos de
conquistar o mundo de madrugada. Porque sua inteligência pro mal sendo que você
é tão bom. Ou eu achava que sim. Porque você era ridículo e eu achava que tinha
alguma coisa a mais pra descobrir. Mas
não tem mais nada e é isso e é tudo isso e sempre foi isso e eu não quis acreditar.
E vejo os pelos do seu rosto de perto, tão de perto, que não estou mais aqui. E
pego nos seus dedos e não tenho a menor ideia de quem você é porque eu jurava
que um dia você iria ser meu e nem esses instantes são. Tudo está acontecendo
no presente e eu já sinto os momentos correndo pelas minhas veias e artérias e
ventrículos como memórias. E você fala e fala e fala. Sobre você. Sobre suas
histórias engraçadas que não me fazem mais rir. Forço um sorriso e uns
comentários. Você nem os escuta. E fala e fala e fala e fala. Sobre você. Sobre
seus planos vingativos. Sobre sua vida supostamente de merda, mas que você acha
incrível. Sobre você. Sobre seus ótimos amigos. Sobre você. E me dá uma solidão
imensa, mesmo você estando ali segurando a minha mão e às vezes, entre um
silêncio e outro, encostando a boca na minha. Eu acho tudo estranhíssimo. Me
sinto estranha. Sinto o mundo estranho. Está chovendo, eu sinto antes de
chover. E conforme você fala um buraco imenso se abre no meu peito, e vai se
abrindo, se abrindo, vindo das suas palavras inúteis. E quanto mais você fala
mais me dou conta de que
Eu.
Não.
Tenho.
Nada.
Pra.
Dizer.
E me sinto ridícula.
O tempo passou voando e não dissemos nada. Passaram horas. Eu preciso ir. Sempre precisei. E você me diz que o tempo passou voando. É. Eu talvez tenha concordado. Sou carregada pra longe por pássaros. Não escuto nada. Meus pés não tocam o chão. Minhas mãos tocam as suas pálpebras, tentando fechá-las. Seus olhos são um buraco negro e me tiram de mim. Desvendei o mistério e sinto tudo estranho. Você era meu herói, meu não-humano. Um dia eu ia ter alguma coisa legal pra contar dessa relação meio-amizade-meio-paixão-meio-saudade -meio-nada, não ia? E se o nada se parece como um grande buraco negro, como pássaros voando ao longe e vivendo pra sempre sem existir, é assim que eu me sinto. Mas de repente eu não tinha nada pra contar pra você. Nem pra ninguém. Sabe sobre mim ou sobre você ou sobre a gente. Nada pra dizer. E eu não aguento mais te olhar. A maior tristeza de todas ia se apoderando de mim enquanto descíamos as escadas. Meu coração rolava por aí. Os segundos passavam e eu ia ficando mais triste porque eu tive certeza de que o tempo finalmente tinha me vencido. Eu que sempre quis arrumar a sua vida não consegui arrumar nem a minha.
E.
Eu.
Não.
Tinha.
Absolutamente.
Nada.
Pra.
Dizer.
Não.
Conseguia.
Olhar.
Pra.
Você.
E o presente era só mais uma memória enquanto eu me despedia e entrava no carro, fechando as janelas. Tinha ficado frio dentro de mim. Lembranças, um punhado delas, espalhadas por cada centímetro do meu corpo. Era só isso. Sempre que eu vejo você, só vejo lembranças de um futuro que não fui capaz de criar. Nós somos os únicos que sabemos. Entro dentro do carro e não sei mais a definição de passado, presente e futuro. Tudo se misturou. E perdi as esperanças de um dia dizer alguma coisa legal sobre a gente. Não tem muito. E o pouco é nada quando estou com os braços jogados olhando pra fora da janela. Você vai embora como sempre e vai andar por aí e vai construir muitas histórias legais e sua vida divertidíssima e você super legal. E eu vou ficar aqui achando que um dia a gente vai se esbarrar na rua e eu vou ter alguma coisa legal pra te dizer. Eu cheguei em casa como se tivesse levado uma surra.
Meses depois você vem confirmar se eu estou feliz. É. Acho que sim. Já fazem 3 anos e hoje sonhei com você. Um sonho estranho que durou a noite. Ou a vida inteira. Você era meu herói não-humano. Você era alguma coisa que eu gostava de lembrar. Hoje eu não faço ideia se realmente teve alguma coisa pra lembrar. Mistério desvendado. Você não é humano, você é um sonho que eu parei de sonhar.
Eu.
Não.
Tenho.
Nada.
Pra.
Dizer.
E me sinto ridícula.
O tempo passou voando e não dissemos nada. Passaram horas. Eu preciso ir. Sempre precisei. E você me diz que o tempo passou voando. É. Eu talvez tenha concordado. Sou carregada pra longe por pássaros. Não escuto nada. Meus pés não tocam o chão. Minhas mãos tocam as suas pálpebras, tentando fechá-las. Seus olhos são um buraco negro e me tiram de mim. Desvendei o mistério e sinto tudo estranho. Você era meu herói, meu não-humano. Um dia eu ia ter alguma coisa legal pra contar dessa relação meio-amizade-meio-paixão-meio-saudade -meio-nada, não ia? E se o nada se parece como um grande buraco negro, como pássaros voando ao longe e vivendo pra sempre sem existir, é assim que eu me sinto. Mas de repente eu não tinha nada pra contar pra você. Nem pra ninguém. Sabe sobre mim ou sobre você ou sobre a gente. Nada pra dizer. E eu não aguento mais te olhar. A maior tristeza de todas ia se apoderando de mim enquanto descíamos as escadas. Meu coração rolava por aí. Os segundos passavam e eu ia ficando mais triste porque eu tive certeza de que o tempo finalmente tinha me vencido. Eu que sempre quis arrumar a sua vida não consegui arrumar nem a minha.
E.
Eu.
Não.
Tinha.
Absolutamente.
Nada.
Pra.
Dizer.
Não.
Conseguia.
Olhar.
Pra.
Você.
E o presente era só mais uma memória enquanto eu me despedia e entrava no carro, fechando as janelas. Tinha ficado frio dentro de mim. Lembranças, um punhado delas, espalhadas por cada centímetro do meu corpo. Era só isso. Sempre que eu vejo você, só vejo lembranças de um futuro que não fui capaz de criar. Nós somos os únicos que sabemos. Entro dentro do carro e não sei mais a definição de passado, presente e futuro. Tudo se misturou. E perdi as esperanças de um dia dizer alguma coisa legal sobre a gente. Não tem muito. E o pouco é nada quando estou com os braços jogados olhando pra fora da janela. Você vai embora como sempre e vai andar por aí e vai construir muitas histórias legais e sua vida divertidíssima e você super legal. E eu vou ficar aqui achando que um dia a gente vai se esbarrar na rua e eu vou ter alguma coisa legal pra te dizer. Eu cheguei em casa como se tivesse levado uma surra.
Meses depois você vem confirmar se eu estou feliz. É. Acho que sim. Já fazem 3 anos e hoje sonhei com você. Um sonho estranho que durou a noite. Ou a vida inteira. Você era meu herói não-humano. Você era alguma coisa que eu gostava de lembrar. Hoje eu não faço ideia se realmente teve alguma coisa pra lembrar. Mistério desvendado. Você não é humano, você é um sonho que eu parei de sonhar.
sábado, 14 de dezembro de 2013
Olhos nossos
Os olhos dele eram como duas chaminés grandes
Por dentro deles saía uma fumaça clara e escaldante
Que me impedia de enxergar
Alguma coisa
Os olhos dele eram da textura de suas mãos
E me lembravam paredes muito brancas e com um leve
Tom de azul
Serenos
Por detrás dos olhos dele havia uma tinta permanente
Pregava na gente
E eu tomei vários banhos dos seus lábios
E nada
Os olhos dele soavam como o relógio
Ficavam se movendo, se movendo
E nunca perdiam um brilho
Me sorriam e acenavam aqueles olhos
Eles emudeciam e me davam adeus, pálidos e lívidos
E cada segundo sem os seus olhos
Foi como ser cega desde que nasci
Eu não sabia andar sem os seus olhos
Não podia me mexer sem os seus olhos
Encolher as pernas e tudo o mais que você sempre disse
Que era coisa de gente estranha
Eu não conseguia fazer.
E mesmo se você saísse por um instante
Pra beber água
Eu queria ser a água que você bebia
O copo que você seguraria
Mas eu jamais poderia ficar
Sem os teus olhos
Seus olhos cheiravam grama molhada
A alma guardada
Um abismo camuflado cheio de luz
E eu queria entrar dentro deles
Arrancar as suas vísceras
Tomar o seu sangue
Te deixar cego
Como eu me sentia toda vez que você se ia
Onde eu iria guardar o meu amor se você dormia com eles fechados
E em paz
Pra quem eu iria sorrir se você não estava mais olhando pra mim
E todo segundo que você não estava lá
Eu não sabia fazer nada
Não tinha ninguém pra olhar pra mim.
E eu não sabia ser sem os seus olhos
Mas eu nunca fui nada perto deles
Eu decidi ser alguma coisa
Então no dia que você virou-se e foi, com a sua mochila nas costas
Eu tirei os seus olhos das órbitas, e coloquei no lugar os meus
Pra que você nunca pudesse mais me ver
Nunca mais pudesse mais me olhar ou me tocar ou me espremer
Me sufocar, arder, mandar e implorar
Com esses teus olhos.
Eu coloquei os meus pra você sempre me ver com outros olhos
Que não esses
E porque eram minhas e não as tuas vísceras
Que você começou a não mais me suportar
Como os ricos odeiam os pobres
Pelo simples fato deles existirem
Eu fiz você me olhar com os meus olhos
Porque assim, eu nunca mais sofreria a maldade dos teus
E em um segundo, como se não percebesse a loucura do ato
Eu passei a te detestar também
Você me olhava com os meus olhos
E eu nunca mais olhei nos teus
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