No dia em que você foi embora pela terceira vez naquele mês, eu pisei forte no chão da minha casa como os soldados na Segunda Guerra mundial e caí na minha cama como um bicho muito pesado que não tem noção do seu peso. Foi aí que, cansada das pessoas, comecei a tagarelar, meio sem voz, com a minha cachorra. Até que, em dado momento, eu lembrei com pesar que ela já estava lá meio velhinha e logo ia me deixar também e fiquei com uma raiva tão grande do mundo que nem sei se existiria alguma coisa depois daquilo. Eu nem sei. Olhei novamente para ela e acho que a pobrezinha estava chorando. Ou talvez eu. Sei lá, me bateu uma baita pena de mim que estava limitada a minha condição de gente, e amando tanto um animal que logo ia morrer que pensei em me jogar em qualquer lugar só pra que ninguém olhasse mais pra mim ou nunca mais me deixasse olhando para as minhas próprias mãos em busca de alguma coisa que eu juro, estava ali, mas sumiu. Minha cabeça doía de cansaço e a minha cachorra continuava olhando pra mim. Foi aí que fiquei com raiva dela também porque me vem esse ódio enorme de todas as coisas que me limitam a um amor tão grande e tiram a razão do meu corpo como se retira um órgão. E a tirei do quarto. E fico olhando as minhas mãos me odiando também por amar assim, não com a pureza de uma criança, mas como o Ghandi que fez greve de fome, como o louco que foge do hospício procurando o sol, procurando o sol, em busca do sol. Porque a vida quer me engolir, mas eu conseguia suportar porque com você a vida arde de uma angústia enorme como um náufrago no meio do mar que só vê imensidão. E é avassalador, mas eu conseguia aguentar as presas enormes da vida. Mas agora eu sinto que ela vai acabar comigo, e trouxe a minha cachorra de volta pro meu quarto porque mesmo com pouco tempo de vida ela é a única coisa que apazigua o inferno do meu coração e que, mesmo se eu abrir a porta, não irá embora. Porque ela não é um pássaro e sim um animal cujo coração é a sua própria liberdade e isso o faz ficar. E dormi a noite inteira abraçada com os pelos brancos, desejando ao meu peito liberdade infinita. Dormi quase como se eu nunca fosse acordar, e acordei com o sol do louco no meu rosto. E só não o odiei também porque a vida quase me engole mas não me destrói. E porque meu peito sempre dói como um admirador do mar desesperado para achar a praia, mas é a única coisa que me faz continuar vivendo.
"A verdade? É uma coisa exterior? Não posso ter a certeza dela, porque não é uma sensação minha, e eu só destas tenho certeza." Fernando Pessoa
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Infinito
No dia em que você foi embora pela terceira vez naquele mês, eu pisei forte no chão da minha casa como os soldados na Segunda Guerra mundial e caí na minha cama como um bicho muito pesado que não tem noção do seu peso. Foi aí que, cansada das pessoas, comecei a tagarelar, meio sem voz, com a minha cachorra. Até que, em dado momento, eu lembrei com pesar que ela já estava lá meio velhinha e logo ia me deixar também e fiquei com uma raiva tão grande do mundo que nem sei se existiria alguma coisa depois daquilo. Eu nem sei. Olhei novamente para ela e acho que a pobrezinha estava chorando. Ou talvez eu. Sei lá, me bateu uma baita pena de mim que estava limitada a minha condição de gente, e amando tanto um animal que logo ia morrer que pensei em me jogar em qualquer lugar só pra que ninguém olhasse mais pra mim ou nunca mais me deixasse olhando para as minhas próprias mãos em busca de alguma coisa que eu juro, estava ali, mas sumiu. Minha cabeça doía de cansaço e a minha cachorra continuava olhando pra mim. Foi aí que fiquei com raiva dela também porque me vem esse ódio enorme de todas as coisas que me limitam a um amor tão grande e tiram a razão do meu corpo como se retira um órgão. E a tirei do quarto. E fico olhando as minhas mãos me odiando também por amar assim, não com a pureza de uma criança, mas como o Ghandi que fez greve de fome, como o louco que foge do hospício procurando o sol, procurando o sol, em busca do sol. Porque a vida quer me engolir, mas eu conseguia suportar porque com você a vida arde de uma angústia enorme como um náufrago no meio do mar que só vê imensidão. E é avassalador, mas eu conseguia aguentar as presas enormes da vida. Mas agora eu sinto que ela vai acabar comigo, e trouxe a minha cachorra de volta pro meu quarto porque mesmo com pouco tempo de vida ela é a única coisa que apazigua o inferno do meu coração e que, mesmo se eu abrir a porta, não irá embora. Porque ela não é um pássaro e sim um animal cujo coração é a sua própria liberdade e isso o faz ficar. E dormi a noite inteira abraçada com os pelos brancos, desejando ao meu peito liberdade infinita. Dormi quase como se eu nunca fosse acordar, e acordei com o sol do louco no meu rosto. E só não o odiei também porque a vida quase me engole mas não me destrói. E porque meu peito sempre dói como um admirador do mar desesperado para achar a praia, mas é a única coisa que me faz continuar vivendo.
sábado, 31 de maio de 2014
Where the heart wanders
Suspira o vulto do vento
E suas volúpias voláteis levianas
Contra as bocas rachadas e santas
Murchas dos homens desumanos
Voa o vento veloz vivo
Parindo do peito um pássaro de polida luz
Cujos espectros externos cheios de aspectos sombrios
Velejam cansados e tortos às duras penas e portas
Entreabertas e profanas do meu coração
Mira-me um vizinho tom de vinho mágico
Adormecendo as pontas finas dos meus dedos e
Rezando-me um beijo doce e cálido de sangue no
Vasto vulgor eterno do céu
Racham os lábios pálidos dos homens desumanos
E num frescor feroz de fúria
Escorre o mundo diluindo devagar os crânios
Restantes do fogo e um ardor manso, de nada
É a morte, meu amor, e a morte
Tem cheiro de vida
A nos sobressaltar como um cálice de vinho
Esvoaçando as nossas cabeças ao som
Da música celestial
Assim como o vento me sopra
E de nada me entristecem os vultos
Que me contam uma breve e harmônica
História de amor
É a morte, meu bem, e a morte
Tem cheiro de vida.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Morfina
A solidão não deixa rastros. Não possui o dom do perdão e
não é perdoada por ninguém. É a visita insistente que faz
com que coloquemos veneno em seu chá pra que bata as botas. Mas ah, não tem
dessa com a solidão. Ela se nutre do pior que temos a oferecer. Como as baratas. Suga o veneno, bebe o chá,
pede mais uma xícara, e começa a visitar-nos com mais frequência. Senta-se, ou
melhor, apossa-se da cadeira mais linda da nossa casa. E os dias passam. Ela
torna-se a mais nova inquilina. E não há nada que possamos fazer, pois
desistimos de enterrá-la a força. A solidão toma afeição por nós quando
aparecemos para ela com paus e pedras, tentando vencê-la, ou quando nos
calamos. Vil, mas cheia de boas intenções, diverte-se sadicamente com o nosso
destempero. Com o tempo outros convidados chegam, mas a vontade de atender
terceiros é nula, afinal, a solidão engorda, vira uma mulher obesa. Quebra as
cadeiras. As pessoas não têm onde se sentar, e a vergonha assola todo o lugar, como uma
poeira estranha. Porque não importa a relação que tentemos estabelecer, a
sensação é de distância. Ninguém nos toca porque a mulher gorda está parada na
nossa frente. Possessa e possessiva, ela não vai a lugar algum. Tudo bem. Não
faz diferença. Você também não vai a lugar algum. E com o tempo deixamos a
sinceridade conosco e para com o mundo de lado, porque o universo e você estão
separados por uma imensa parede de ferro. E no momento se está tomando chá com
a velha gorda amiga quebrando as cadeiras e deixando-nos surdos e cegos e mudos.
Tudo se envolve em uma densa neblina. A vida fica meio engraçada, pois ninguém
te descobre. As pessoas só escutam o que querem ouvir. E é exatamente isso que
se diz. E se diz sem ter certeza de que as palavras chegaram. Não há som. A
densa neblina transforma-se em um aconchegante cobertor quando está frio. E a
vida fica mais calma. Nada se teme, porque a mulher gorda protege a casa com
unhas e dentes. Só que um dia ela fica
grande demais e vai embora. Mas a névoa fica. É tudo que fica. Nem o medo nem a
coragem, nem o amor nem o ódio. Apenas a solidão e a morfina e isso é tudo.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Eu nunca vou voar
As pessoas não são pessoas e eu nunca vou voar. Os pássaros olham-me, de uns tempos pra cá, com um certo ar de deboche. Se eu não posso voar, por que tenho olhos para ver o céu? Olho o céu e não posso voar. Absolutamente triste, eu fico. Como se além de não ter asas eu também não tivesse pés pra pisar no chão. A gravidade é demais pra mim. Sou aleijada na alma e por isso me falta o toque simples de quem pisa no chão com a delicadeza do ser, mesmo sabendo que não pode voar. Quem criou as regras desse jogo? Eu não quero mais brincar, não concordo, não quero mais saber. Perdi faz tempo, rio com as pessoas, mas nunca entendo a graça. Faz-me bem a incompreensão da alegria rasteira e geral, faz-me tão bem quanto uma navalha escavando o pescoço. Se existe uma parte podre minha que nem o vento nem o tempo nem o melhor dos sorrisos e das intenções pode me tirar, então por que não posso voar? Devo conviver o resto de minha vida com uma angústia que não consigo distribuir? Que me faz ter medo das pessoas que não são pessoas, dos pés delas que tocam o chão, das suas cabeças e do horror das suas palavras. Devo viver o resto da vida com horror da vida, com horror das pessoas que se aproximam demais e me olham com olhos sombrios? Devo viver uma eternidade sem conseguir me comunicar com o mundo? Como viver sempre retraindo e sufocando, respirando rápido demais pra não perder o ar, correndo dos lugares cheios? Se meus pés mal tocam o chão, como posso ir em busca do que é bom, se nem o bom é bom o suficiente para livrar-me do tão ruim. Se as pessoas não são pessoas e estão sempre comprando novos carros e novos apartamentos e novas vidas e dizendo que subiram na vida. Eu não quero subir na vida. Eu não quero que ninguém preste atenção em mim. E acordam pisando em solo infértil, e dormem como se não pudessem morrer. E temem a morte como se a vida não fosse assustadora. Porque não olham com atenção, porque não sabem quem são, porque não pensam antes de dizer, porque matam, porque torturam, porque negligenciam, porque ignoram. As pessoas não são as pessoas e eu tento fugir delas, mas sempre me encontram. Elas são como a gravidade e me tiram o sangue do rosto. Eu tenho medo de ser uma pessoa. Deus me livre, Deus me explique, por que eu não posso voar? Assim eu me livraria dessa gente que brota do chão como erva daninha, gente que se molda sem se construir. Eu não teria medo dos rostos feios deles e das suas verborragias medonhas. Deus que me livre de ser uma pessoa. Eu preferiria ser um rato, é mais digno, menos pobre, menos imundo, pelo menos eu não teria que brincar desse jogo infernal. Até morrer seria mais descente. Mas se eu tenho a forma de um ser humano eu provavelmente tenho a obrigação de ser feliz. Por que? Enquanto isso há uns anos atrás a Segunda Guerra Mundial e a Ditadura Militar, por que mesmo eu tenho que ser feliz se eu tenho medo dos seres humanos e em todo lugar eles estão? Todos eles me empurrando motivos e piadas e eu quero cuspi-los, quero vomitá-los com todas as minhas tripas e com todo o meu sangue que a humanidade tirou, junto com meu coração, inteiro e de uma vez só. Eu quero vomitar. Eu tenho horror em viver. Não tenho asas nem pés, então Deus, por que não me fez outra coisa? Por que eu tenho que viver em um corpo que não é meu? Por que tenho que sofrer o desgaste do mundo enquanto todos sorriem nas calçadas? Eu gostaria muito de me reduzir a nada, tem remédio pra isso? Eu cansei de me ser porque esse é o único mundo que eu consigo ver e não posso mudá-lo porque eu não me sou outra coisa. Cansei de me ser se ninguém é capaz de me amar porque a minha tristeza vai diminuindo-me a apenas uma luz opaca e ninguém consegue mais me abraçar, pois a falta de vida toma conta do meu corpo. Se não posso voar e também não tenho pés, ao menos espero que não exista vida após a morte, pois a morte tornou-se a vida. Não volto a esse mundo nunca mais. Nem se fosse pra voar. Nem voltando como o mais belo dos pássaros. As pessoas na Terra continuariam olhando pra mim e eu sinto um pavor tão grande que vou dormir.
sábado, 15 de março de 2014
Memória
Meu amor, escrevo-lhe à luz da lua, em meio ao inferno que
este mundo está se tornando. Olho para frente,
para trás e para os lados e as dunas que vejo parecem-me mais como vendavais
desfeitos por uma força maior. Das muitas coisas ao meu entorno, poucas tocam o
meu coração, acendem-me as pupilas, fazem o meu sangue correr. De nada me vale
esta lua se carrego de ti apenas uma foto manchada e uma lembrança nítida de tuas maçãs do rosto. Querida, estaria triste se ainda houvesse em meu coração
qualquer coisa além do desejo absurdo de lembrar de ti a cada milésimo de segundo, para
que assim, eu não te esqueças jamais. Eu sinto saudades. Os olhos da memória me falham,
talvez eu te veja mais bonita agora. Já não enxergo tuas veias saltando dos
braços ou teus olhos fundos de dor. Já
não encontro mais nas dunas as tuas
rugas na testa. Tudo que me resta é uma foto tua, quase tua. E ainda sou teu,
foi tudo que me restou: esta certeza. Enquanto não vejo tuas mãos delicadas e teus cabeços bagunçados, eu te imagino, te pressinto, pois o tempo passou, você
deve estar diferente na minha memória também. Te reinvento todos os dias para
que eu nunca me esqueça. E principalmente para que nunca esqueças, meu
amor, você ainda é tudo que eu tenho.
segunda-feira, 10 de março de 2014
Carta
Querido,
venha me salvar. As lâmpadas não acendem mais. Acho que cortaram a luz. São muitas contas a pagar- não que me falte dinheiro, falta força de vontade. Ou. Não sei. Aquele algo que você dizia fazer o corpo funcionar. Eu perdi, você achou? Você costumava achar qualquer coisa pra mim. Perdi coisas mais importantes do que sapatos ou as chaves, devo confessar. Nunca mais fiquei ansiosa pra fechar as portas do apartamento, com medo, você lembra? Nunca mais depois que você foi embora. Se você me visse agora, arrastando os pés por esse apartamento porque dói demais pisar no chão, será que você me explicaria o que houve? Ou o que não houve? Durmo de portas e janelas abertas na esperança de você vir brigar comigo falando mais uma vez que eu sou desapegada da vida. Precisava ver agora. Mas não entrou ninguém aqui, uma pena, nem você. Passo a maior parte do dia dormindo de olhos abertos, às vezes eu queria que alguém chegasse gritando, socando as paredes, chutando os móveis, qualquer coisa pra eu despertar. Virei um fantasma de você, querido, onde estão as respostas? Você me deixou sem nada. Todas as manhãs quando acordo, me pergunto se você ainda toma seu café forte, ou se por um milagre aprendeu a gostar de leite. Nunca entendi. Às vezes eu preferia que você tivesse morrido. Por que teve que ser eu? As pessoas dizem que você não gostava de mim. É verdade? Porque as portas do armário continuam abertas sem nada dentro do jeito que você deixou. Acho que a minha mãe varreu a casa, eu lembro de estar tudo sempre tão imundo aqui. Passei seis meses dizendo pra minha mãe e pro porteiro que você tinha ido em busca do motivo que eu disse pra você que queria encontrar, eu tive certeza de que você tinha ido achar pra mim, por uns seis meses ou seis anos eu tive certeza. Não consegui abandonar a casa, você parou a nossa vida ao meio e eu fiquei buscando pistas nesse cubículo. Nem um bilhete você deixou. Eu deveria te odiar, mas nem isso você me permitiu. Fiquei tentando encontrar o motivo que você não trouxe. Cortaram a luz, querido, mas minha mãe vai pagar a conta pra mim. Ela sabe de tudo e eu desaprendi tudo. Acho que daqui uma semana vou embora. Cheguei a arrumar minhas coisas outro dia, mas não achei a sandália que você me deu de aniversário e perdi a coragem. Não me movo daqui sem achá-las. As pessoas não entendem. Elas acham que você não gostava de mim. Vou embora porque nem eu sei. Preciso encontrar tudo que você levou de mim. Muito mais importantes que as sandálias ou as chaves. Eu preciso do motivo, querido, e agora finalmente sei que não posso mais contar com você.
sábado, 8 de março de 2014
A salvo
As vozes as cores os cheiros
Nada existe pra mim
As xícaras os livros as colchas
Nada existe pra mim
Os vultos as pessoas as nuvens
Tudo passa por mim
As letras as frases os gritos
Jamais saem de mim
A vida essa coisa estranha
Vida eu sinto muito
Mas você também não existe pra mim
O que sobra são
Pratos copos prateleiras
Que também não existem pra mim
E toco tudo e cheiro tudo
E os vultos vão passando e se curando
Se curando se passando
Dessa triste solidão que é a vida
Os garfos as facas nuances entrelinhas
Nada fala por mim
A vida essa triste eterna solidão
Das coisas por elas mesmas
E tudo sozinho e tudo apodrecendo
E duas mãos entrelaçadas e muito
Dióxido de carbono
E tudo sem sabor sem toque
Sem refrão sem suavidade sem nada
E os copos xícaras talheres
Sem nada
Nada existe pra mim
Sou o vulto do mundo
E ninguém sopra vida em mim
Ninguém me salva de não existir
Mas hoje olho os tapetes janelas cortinas
Sou todos eles e sonho e sonho e sonho
E estou a salvo
Nada existe pra mim
As xícaras os livros as colchas
Nada existe pra mim
Os vultos as pessoas as nuvens
Tudo passa por mim
As letras as frases os gritos
Jamais saem de mim
A vida essa coisa estranha
Vida eu sinto muito
Mas você também não existe pra mim
O que sobra são
Pratos copos prateleiras
Que também não existem pra mim
E toco tudo e cheiro tudo
E os vultos vão passando e se curando
Se curando se passando
Dessa triste solidão que é a vida
Os garfos as facas nuances entrelinhas
Nada fala por mim
A vida essa triste eterna solidão
Das coisas por elas mesmas
E tudo sozinho e tudo apodrecendo
E duas mãos entrelaçadas e muito
Dióxido de carbono
E tudo sem sabor sem toque
Sem refrão sem suavidade sem nada
E os copos xícaras talheres
Sem nada
Nada existe pra mim
Sou o vulto do mundo
E ninguém sopra vida em mim
Ninguém me salva de não existir
Mas hoje olho os tapetes janelas cortinas
Sou todos eles e sonho e sonho e sonho
E estou a salvo
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