quarta-feira, 19 de junho de 2013

Querido Demônio


Pelo fato de odiar escrever a nada, essa carta é para você.
Demônio enrustido, maquiado, camuflado, disfarçado, e principalmente, covarde. Essa é pra você. O eu que nunca quis ser.


Te dizer, meu amigo, meu fiel companheiro de todas as manhãs, tardes, noites, madrugadas, que não aguento mais essa cilada que você fez pra mim. E o nosso combinado, de que você podia viver desde que ninguém olhasse pra você, desde que ninguém te visse de verdade, desde que você se contentasse em aparecer sorrateiramente e subir aqui, nessa cama, a me esperar, todas as vezes que fecho os olhos? Fechar os olhos é a maior perda de tempo, existe uma parte de mim que continua acordada enquanto durmo e esse pedaço podre é você. E o nosso pacto, foi pra onde, será que você o engoliu também? Junto com todas essas migalhas de esperança, essas míseras lascas de compaixão que eu demorei tanto tempo pra catar por esse chão imundo e esfregar na sua cara, que dava, dava sim pra não morrer de fome, de falta, de pouco. Dava pra ficar de pé mesmo sendo pouco. Bem que diziam que essa coisa de fazer pacto com o demônio é meio perigosa, então tá aí, tô expondo pra todo mundo o pacto que a gente fez, e você vai fazer o que, vai fugir? Não, agora fica que você vai escutar. Há anos que quero te dizer, seu engraçadinho de merda, o que você fez comigo? Pra onde você me levou? Estou tentando descobrir até hoje. Você era tão pequeno e indefeso quando nos conhecemos, pensei que era preciso só  um pouco de cuidado. Amor, talvez, isso existe em você? Estou ficando mais louca do que imaginava, é claro que amor existe em você, se não fosse o amor que lhe dei deveras como você iria crescer? Me agradeça, seu filho da puta. Se levante e olhe pra mim com o que lhe resta de dignidade. Esperei anos para reunir coragem e lhe destinar essa carta, sempre tive medo de você transparecer nos meus olhos e me impedir de realizar meus sonhos. Quem eu sou, sim, mundo, eu sou uma medrosa que se armou com coragem de papel. Sinto muito decepcionar alguém, mas é alto demais o pódio em que me colocaram, eu não sirvo mais pra interpretar esse papel. Estou botando fogo nele. Aliás, eu decepcionei você, amorzinho? Você esperava mais de mim, será? Eu sou medrosa, mas no começo eu não tinha medo de você. Você era tão pequeno que eu mal sentia a aproximação. Eu tenho medo, mas você é covarde. Covarde. Covarde. Covarde. Como se sente sendo um parasita intracelular? Como suas fibras não queimam e não se torcem em gravetos e não me deixa em paz?  Já não basta a vergonha que passei. E quem é você, aqui nesse corpo, quem você é além de um protótipo. Quem você acha que é, pra assumir as rédeas dessa alma? Desgraçado, você precisa de mim pra viver. Você respira o mesmo ar que eu, se alimenta de tudo que me cerca e prefere absorver as belezas. Você sempre foi egoísta que eu sei.  E vai deixando esses restos de imundície por aqui como se eu não pudesse enxergar mais. Ouça bem, eu tenho dois olhos e eu estou olhando pra você nesse instante. Eu ainda posso te ver, espertinho. Pena que quando você ia embora eu te pedia pra ficar, não por vontade própria, mas como uma mãe que não suporta a ausência de um filho mesmo que ele seja uma pessoa horrível. Dê a cara à tapa agora, meu filho, não é isso que você sempre gostou de fazer? A mãe tá aqui, não chora não.  Lembra que você me ensinou que chorar é inútil porque a dor não passa? E mesmo quando eu chorei você me fez carinho. Sussurrando vai, afunda aí na merda, enquanto isso acenava pra mim. Esse é você. Esse sempre foi você. Um dissimulado. Sempre me fazendo acreditar que a culpa era minha, a falha era minha, você ria de mim dizendo: olha pra você mamãe, que fracasso de gente você se tornou. Demônio, querido, você já foi melhor que isso. Demorei uns anos pra conseguir perceber que você me matava aos poucos, e eu te jogava pra fora do berço,  mas você nunca conseguiu se virar sozinho que eu bem sei. E eu sempre me culpei porque não sabia mais viver sem você. Eu via beleza em você porque você absorvia beleza de todas as coisas. Você roubou a beleza e se transformou nela, anunciando o quão valioso era, se promovendo. E eu te comprei com o resto do que me sobrou. Sim e sim. Eu medrosa, você covarde. E sempre nós dois andando juntos. Até que viramos um só. Veja só, que tristeza, eu nunca mais consegui chorar sem a leveza do sentir. Era como se a alegria estivesse sempre recolhendo a mão pra mim e abrindo pra você. Você sempre levou o crédito das coisas, sempre ditou as regras, mas ninguém nunca suspeitou. Coitados, se soubessem da junção de nós jamais teriam dito o quanto eu era corajosa. Você quase me calou em muitos momentos. Mas quem continuava lá ainda era eu, mesmo que você estivesse lá também. Depois de um tempo tornou-se insuportável dividir o corpo com você e tentei a todo custo te expulsar. Nada funcionou. Malandro você, esperto, e principalmente, insistente. Viu que eu não estava feliz com a sua companhia e se escondeu bem lá no fundo, mas quando eu achava que não, você aparecia em noites escuras, sombrias, que nunca consegui definir se eram uma representação real de você ou de mim. Como queria varrer você. Se eu pudesse. Mas teria que varrer eu mesma, e finalmente consegui. Varri os dois e me senti completamente vazia. Um espaço em branco, zero à esquerda, na maioria dos dias eu nem existia. Ninguém podia me olhar. E você estendia os braços pra mim, volta mamãe, me abraça,  isso ainda é melhor do que o infinito dos dias incertos. Pelo menos eu sempre tive certeza de você. E você me arrastava e eu te arrastava comigo. Era sempre quando estava escuro. Nunca consegui me livrar de você. Mas hoje, depois de tanta coragem reunida, vim dizer que o covarde é você. E que eu não suporto mais essas duas mãos cravadas no pescoço, não aguento mais ter que dormir com os punhos e dentes cerrados com medo de você, suando frio, alucinando, viajando, pairando em nada, sobrevoando as minhas fortalezas de papel. Eu odeio acordar em um lugar diferente e não saber como fui parar lá, odeio não saber se estou dormindo, de fato, porque talvez você ainda esteja acordado. E você grita quando eu durmo também. É insuportável. Talvez seja por isso tantas olheiras e ossos depois de dormir horas e horas, talvez por isso as inúmeras dores de cabeça. Você grita demais. E só eu escuto. Deve ser por isso que ninguém acredita em mim. E dizem que estou ficando louca, eu queria ter alguém pra conversar sobre isso, então vim falar com você. Você acha que eu enlouqueci? Seja sincero. Eu nunca tive ódio de você, sempre achei você uma criatura inocente e indefesa que só precisava de amor. Mas você sugou todo o meu amor pra você. Eu estou com as mãos atadas e a impressão que tenho é que eu mesma me amarrei aqui. Só queria entender. Ninguém nunca entendeu você, não é mesmo? A falta de compreensão faz as pessoas cometerem loucuras. Talvez seja isso. Eu sempre te perdoei. Sempre me vi muito em você e na sua beleza meio triste, meio amarga, talvez, sombria, sempre teve um pouco de mim. A gente se misturou, porém você é solidão e eu liberdade. Amorzinho, tira essas correntes da mãe, vai, por favor, eu não aguento mais. Acordar assustada com todos esses hematomas e querer esconder pra ninguém olhar pra você. As pessoas acham você feio demais, vê se pode, sempre te achei tão bonito. Estamos aí, eu, você, minha visão distorcida e as  fortalezas de papel. Me liberta, vai? Me deixa respirar um pouquinho, tá tudo tão triste, lembra da promessa que você me fez um dia de nunca transparecer nos meus olhos? Qual foi, tá querendo ver o mundo, é? O mundo não gosta de você, o mundo não te entende, não te quer, é por isso que sempre te escondi pra que você pudesse ser amado por mim. Hoje não sei se é mais amor, acho que é um pouco de consideração que sobrou. Eu tenho vergonha de você. É isso, no final de tudo, não é ódio, mágoa. Nem amor. É vergonha, eu tenho tanta vergonha de você por ter se transformado em mim. E tenho tanta vergonha de mim por achar que era capaz de cuidar de você sem me amarrar em você. Eu sou uma prisioneira de guerra, mas me deixa sair dessa. Não digo nem vencer, deu empate, fechou? Mas me deixa respirar. Não tem espaço pra nós dois mais nesse corpo, ou você vai ou eu vou ter que me retirar. Se você não for nós dois morremos. É isso que você queria, meu filho? Transformar mamãe nesse papel de parede bege que as pessoas olham e não sabem pro que serve? Dá um tempo. Eu lhe imploro. Vá embora. Não vou contar pra ninguém os seus segredos, só que não existe mais espaço pra nós dois. Eu te entendo, demônio abusivo e cruel. Covarde. Eu te aceito. Mas uma mãe também precisa deixar os filhos irem. Se quiser voltar, a casa é sua, mas dessa vez as luzes estão bem acesas. Boa noite.

sábado, 8 de junho de 2013

Sobre o que nunca pude tocar

Ela era tão bonita que me senti quase constrangido ao lhe dirigir a palavra. Ela era como qualquer mulher, mas sua beleza não era óbvia: existia algo em seus olhos. Ela possuía um par de singelos olhos tristes cor de mel. Que clareavam ao sol pra me fazer lembrar do céu, e que ainda assim no escuro iluminavam meu rosto como fogo em brasa, pra me lembrar do fel. Parecia-se como todas, mas quando a olhei, senti mesmo foi pena de mim. Pobre de mim, coitado de mim. Além de tristes, seus olhos eram distantes. E um olhar distante significa mais do que as palavras podem dizer. Estava de cabeça baixa e quando perguntei qual era o seu nome, ela se ergueu e fixou os olhos em mim, e não posso negar, além de pena de mim, senti medo. Era a primeira vez que eu via alguém tão longe e perto ao mesmo tempo. Ela me enxergava mas jamais seria capaz de me olhar. Não estava ali, e naquela noite eu tive certeza de que aquele era o tipo de mulher que jamais estaria em lugar algum. Aliás, não tipo, porque nunca cheguei a conhecer alguém como ela. Não exatamente. E eram os pequenos detalhes que distinguiam ela do resto que faziam dela tão bonita. Depois que ela disse seu nome, me calei. Além de medo e piedade de mim mesmo, senti vergonha. De súbito e estranhamente, como uma luz queimada que resolve acender. Não me sentia no direito de falar com aquela mulher, havia algo em sua voz que me dizia que não se deve despertar a beleza que descansa em sono profundo. Tudo nela se encaixava, principalmente o sorriso e os olhos. Quando os olhos estavam distantes, existia uma fraca linha abaixo que expressava algum tipo de sentimento ou de palavra que eu nunca cheguei a decifrar. E quando os olhos tentavam focalizar alguma coisa a boca se calava, ou melhor, tornava-se inexpressiva. Porque mesmo sem dizer aquela moça me disse muitas coisas. É claro que eu quis conhecê-la melhor, mas era como um sussurro, um segredo. Eu não quis roubar a moça de uma coisa que nunca cheguei a descobrir. Não quis roubar o seu tempo porque naqueles segundos eu pensei que ninguém jamais tinha me presenteado com tão fantástica visão, e era um insulto continuar ali, desfrutando do olhar vago e fundo de uma moça perdida. Era abuso eu inclusive achar em um primeiro momento que ela fosse perdida, porque por mais que não estivesse ali, tive a impressão de que ela sabia exatamente onde estava. A mulher que quando despedi sem dizer meu nome sorriu me olhando (nunca o contrário). A mulher que me mostrou, naquela noite e em tantas outras que não a vi, que os amores passageiros têm febres fúteis. A mulher que eu tenho certeza que estava sempre se doando, mas nunca se mostrando pra ninguém. Que estava exposta e ao mesmo tempo tinha construído fortalezas dentro de si mesma. E eu me senti vencido por aquela alma. Não que perder possuísse grande significado, mas naquele instante me senti como sangue e nada mais. Aquele olhar e aquele nome jamais me saíram da cabeça, e depois daquele dia, procurei ela em todos os lugares, mas daí lembrei que ela nunca estava, de fato, em algum lugar. Mas estava sempre onde deveria estar. O nome dela? Seu nome era solidão.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

E eu nada






Hoje eu pensei que se
Que se a vida cair
Que se o vento me tirar daqui

Que se eu me enfiar nas árvores como um galho de luz
E não conseguir fugir

E eu nada
E eu tudo
E eu sempre mais do que devia ser

E eu aqui
E eu lá
E eu em nenhum lugar

Que se essa maré não virar
Eu não me soltar mais dessas correntes
E não conseguir voar


E eu como o vento nesse leva e traz
E eu que de tanto amar já nem sinto mais
E eu aqui

E eu nada
E eu que sequei como os lagos que derramam
As lágrimas dos peixes

E eu que sinto como as marés
Que recuam pra poder gritar

E girar e girar
E voltar
Como ombros pesados a aguardar

Uma canção
Um sonho bom
Qualquer coisa que seja assim

Muito menos do que dizer,
E que seja o vento
Que veio contra o cais

Que se abraçou à última vela
E sorriu de tanto não ser
E de não ser chorou pedindo perdão

E de tanto pedir perdão
Não agarrou nada nas mãos
E mesmo assim e mesmo assim

Conseguiu voar ainda mais alto
Mexendo em tudo
E abrindo gavetas e mais fundo

E eu que já nem sinto mais os teus sinais
E eu que de tanto amar chorei mais
Do que qualquer um

E eu aqui
E eu nada
E eu que queria secar como os peixes

Sem o sofrer
Desse eterno leva e traz
Desse eterno nunca mais

Pra sempre

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Vivendo o caos- manicômio da mente (Prólogo)

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Entrou novamente naquela sala tão conhecida do psiquiatra. Estava em dúvida se eram os anos de terapia ou se ele realmente havia ficado mais feio. A barba mal feita impregnava seu rosto de uma sujeira tamanha que a vontade do paciente era rasgar-lhe a face para descobrir o que havia além daquela máscara. Não voltara àquele consultório por desespero, como muitos podem imaginar, que a verdade seja dita agora, ele queria vingança. Ou respostas. Mas a desculpa mesmo que tinha trazido era o fato da receita de seus remédios para dormir terem vencido. O que ele não sabia é que deveria convencer aquele velho da sua lucidez para que ele próprio não saísse vencido daquela sala. Durante anos, para Ricardo, aquele lugar parecia mais um purgatório, o velho era o diabo, um juiz, mas no final das contas os dois são os mesmos, ou os três, porque o paciente (assim devemos chamá-lo?) gostava de se incluir nas coisas.
-Bom dia, Ricardo, faz tempo não lhe vejo! Pausa. Silêncio. Pena que tenha voltado, mas pelo visto obteve grandes progressos!
Aquela voz entrecortada por vírgulas e suspiros falsos o faziam querer enfiar um dedo na garganta, a mão inteira, aliás, vomitar ali em cima daquele divã imundo, falso branco vagabundo, maldito cheiro de álcool impregnado nas paredes, nas vias áreas, no sangue, maldito sangue latejando nas veias descompassado, ouvidos surdos da maldição daquele bom dia vomitado, como pedras que se jogam esperando que brotem flores.
-Progressos? Hahahahahahahaha. Subitamente ficou descontrolado, curvando-se de tanto rir, balançava a cabeça, frenético com aquela sensação prazerosa de desdém que fazia da cara do psiquiatra. Doutor, nessa vida a gente só anda pra trás, disse-lhe, pausando o êxtase que sentira cinco segundos antes, e também porque seu rosto estava queimando e uma fúria começava a subir-lhe pelos ombros, pelos ossos, como um choque elétrico.
-Acalme-se, Ricardo, só o que não tem jeito na vida é a morte.-e naquele momento pegou a caneta e começara a fazer suas habituais anotações em um caderno mofado, guardado na primeira gaveta.
Que ódio sentiu daquele caderno, nojo daquela caneta e de tais mãos imundas. Quis cuspir, quis cuspir em tudo, olhou pela minúscula janela do consultório que também lhe dava arrepios, mas não havia nada, não havia nada, era um dia meio tanto faz, tanto fez, o sol não apareceu e tampouco estava chovendo, não havia nada ali, nem aqui, refletiu, não existe nada aqui também.
Lembrou-se. Como um choque. Um choque. Finalmente a lembrança que viera vasculhando o cérebro durante dois anos, dois anos inteiros, havia surgido do nada em sua pele, desabrochando-se como uma flor, uma flor negra, e agora tudo estava tão claro que era como se a resposta estivesse sempre ali. O rosto ficou inexpressivo:
-Foi você.- disse lenta e pausadamente.
-Eu o quê?
-Você que me mandou...-não sabia prosseguir. Então respirou e cuspiu as palavras ao mesmo tempo que levantara-se de um salto e apontara-lhe o dedo:
-Você me mandou para aquele manicômio! Aquele maldito inferno! Verme! Cretino! Como pôde? Os choques, os malditos choques elétricos, antes tivesse me enviado a morrer! Desgraçado!
Àquela altura, todos ao lado de fora da sala já tinham ouvido os gritos, não havia dúvidas de que ele havia enlouquecido mais uma vez, e logo todos os funcionários vieram a socorro do médico.
-Está precisando de ajuda aí, doutor?
-Não, está tudo sob controle, pode se retirar- disse à enfermeira, mas sem despregar os olhos de seu caderno. O fato de encontrar-se indiferente a tais gritos fez com que Ricardo ficasse ainda mais furioso.
-Fale comigo! Olhe pra mim, infeliz!- continuou sem olhá-lo.
Virou a mesa do psiquiatra, então, e fez-se um grunhido ensurdecedor, mas calou-se. No espelho atrás da mesa dava pra ver como seus olhos estavam vermelho sangue de raiva. Estava indignado, queria quebrar as vértebras do médico até que implorasse por socorro, mas parou por questões óbvias, ou nem tão óbvias assim, um espelho era a maior tentativa de lucidez criada pela humanidade, e o desgraçado daquele psiquiatra havia o colocado ali, bem no meio da sua cara. O objetivo daquele aparato, porém, foi de contramão ao que se esperava. Ricardo perguntou-se quem era, ali, olhando aquele espelho. Era um truque, uma armadilha, aquele não era ele, é claro que não. Quis ser cego, aquele reflexo não podia ser ele, aquilo era um monstro, não era ele, ele era feliz, estava bem, estava tudo O.K, não é assim que se diz, tudo sob controle? O seu cérebro estava o enganando, estavam lhe tirando sarro, é claro que não era ele, nem era essa sua fisionomia, ou será que era, malditos dois anos naquele manicômio?

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Sem nome (seu nome)

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Fechei os meus olhos. O que eu estava sentindo? Naquela manhã linda, no meio daquela chuva maldita, em meio a um raio simples de sol. O que era isso? Olhei pra longe. Ao longe e tão longe. Os dias passaram. As estações mudaram e eu ainda não tinha conseguido encontrar uma explicação. Os sentimentos são como as flores, as amarelas, que refletem o brilho do sol, eles são puros como o raiar do dia, murcham, crescem, florescem, brilham, apagam-se. A cada canto que se olha há uma flor. Em cada canto uma cor, um amor, uma dor. As que nem nasceram e as que já se apagam. E tudo sempre em constante mudança. E eu então? Eu entro nessa história onde tudo começou. Onde uma flor morreu e outra nasceu. E ambas continuam existindo. Costumava ser um vale escuro, um céu cheio de nuvens pretas, e eu era uma florzinha pequena, tão pequeninha, tão escondida, incerta, duvidosa, no meio de uns arbustos, daquelas que as pessoas nem arrancam pra dar pra alguém porque não enxergam, ou mesmo porque não conseguem ver beleza. E eu ia absorvendo a tristeza das ruas, chovia demais, eu não via nada, um feixe de luz sequer, murchei, fiquei invisível, por pouco não morri, doía tudo em mim, eu respirava dor, pura dor. Até que, veja só, como o destino encaixa as peças direito, veja bem, tudo mudou. Em um dia, sou incapaz de me lembrar qual, mas esse se diferencia de todos, apareceu-me uma pessoa, era um rapaz, um lindo rapaz, ele tinha um sorriso lindo, no meio de toda aquela chuva ele tropeçou em mim, não vou negar que doeu, se é que eu ainda sentia algo, mas depois me olhou com um cuidado mágico, tão mágico, ele conseguiu me ver, e justo eu, nossa, justo eu que achava que nem existia mais, justo eu que era tão pequena, tão nada, e ele era grande, bonito, ele existia, bem na minha frente, me olhou e sorriu. Depois ele foi embora, mas todos os dias voltava, e a cada dia parece que chovia menos, todo dia ele olhava pra mim e com aquele sorriso, ah com aquele sorriso o sol apareceu, não sei nem se era o sol ou o sorriso dele mesmo, mas tudo foi ficando um pouco mais claro, a dor foi diminuindo, jamais deixando de existir, mas a ponto de eu quase nem senti-la. O tempo foi passando e cada dia era mais bonito, cada dia aquele menino ficava mais bonito pra mim, e eu florescia, me tornei uma flor maior, mais bonita, acho que nem por fora, talvez por dentro, mas é isso que importa, fui me consumindo daquela luz rara, eterna, incrível, magnífica, esplendorosa. A luz do seu sorriso. E você nunca precisou me arrancar da raiz, você nunca quis me deixar morrer, você me deixou ali onde eu estava, sem me tirar do meu lugar, mas voltava todo dia pra me ver, me observar, e eu me nutria disso, ali naquele cantinho eu viajei o mundo inteiro só de olhar pra você, só de poder ter a sua atenção, no meio do nada o céu abriu, as nuvens ficaram mais bonitas, tudo tinha mais cor, mais vida, eu sentia tudo escandalosamente bem, onde deveria estar, cada coisa, cada coisa criada por esse universo, cada pedaço de mim se sentia perdoado, e eu nem sabia de quê ou por que, mas só de olhar pra você eu me sentia perdoada de tudo. Eu não fazia ideia do que eu sentia por você, mas era algo tão bonito, uma coisa surreal, era um sentimento sem nome, assim mesmo, sem nome, mas que eu queria gritar ao mundo se tivesse um. Mas eu tinha medo de morrer, de sofrer nessa promessa, mas você voltava todo dia pra mim e como não amar alguém como você? Amor, era isso, era, é amor, e eu demorei tanto tempo pra descobrir um nome, tão simplesinho, mas cheio de significado. E eu quero que você saiba que aonde você for nunca vai ser muito longe, nunca tão longe que eu não possa te encontrar, porque só de ver o seu sorriso eu tenho vontade de te dar a mão e sumir daqui, pra algum lugar em que eu possa te olhar pra sempre, só de te ver eu tenho vontade de rir até perder a voz, a cabeça, noção das coisas, aliás, a noção das coisas eu já perdi faz tempo quando eu te encontrei. E hoje eu posso te dizer que eu te amo, que bom que você existe, se você não existisse eu te inventaria, e se você não aparecesse eu daria um jeito de te encontrar. Você pulou do mais lindo dos meus sonhos na minha realidade, na minha frente, se bem que nem isso, eu jamais teria a ousadia de sonhar com algo tão maravilhoso como você, tão incrível, olha eu aqui, procurando palavras que nem existem só pra poder te dizer como eu estou feliz, procurando palavras que são incapazes de te dizer o quanto sou grata por você não ter desistido de mim, palavras que não exprimem o quanto a vida ficou mais fácil desde que você quis ficar comigo, assim, só por ficar mesmo. Eu carregava um peso tão grande nos meus ombros, dentro de mim, na minha alma, uma angústia imensa, e tudo parece tão mais leve desde que você chegou, desde que você decidiu dividir esse peso comigo. Você me disse que queria me levar pro outro lado do rio, pra um lugar mais bonito, mas você está enganado, o lugar mais bonito já é qualquer lugar em que eu estou com você, porque toda vez que você olha pra mim admirado eu sinto que vou explodir, eu me sinto alguém, uma flor bonita, eu sinto uma coisa tão bela por dentro, uma coisa que você não vai ser capaz de entender. Hoje eu tenho certeza que as pessoas nos aparecem na hora certa, no momento exato, nem meio segundo a mais, nem meio segundo a menos. Você me trouxe felicidade e esperança quando eu não conseguia mais sorrir, você me trouxe força quando eu não consegui encontrar beleza dentro de mim, você me presenteou com o mais belo de todos os sentimentos, algum anjo me trouxe o mais lindo dos anjos, que foi você, que cuida de mim e me protege. Você é o raio de sol mais bonito que eu já fui capaz de ver e de sentir. E eu nem sei mais o que escrever porque só queria te dizer com tudo isso uma coisa que não existe, uma coisa que eu não consigo nem tocar, mas espero que você entenda que você é lindo, você é a coisa mais bonita que já me aconteceu, você é um presente que eu quero guardar comigo sempre, é um diamante que eu prometo sempre lapidar pra nunca perder. Eu sei que o que mais existem por aí são pessoas dizendo eu te amo, mas, meu amor, não há mais nada que eu possa dizer. Eu te amo.

Nota: Espero que esse texto tenha muitas vírgulas porque é só o começo de tudo.
Nota 2: “Se existisse no mundo, com suas regras terríveis, uma brecha pra roubar no jogo, se existisse um único vão por onde se escapa do óbvio, se desse mesmo pra passar correndo atrás de Deus e pular no abismo do que queremos porque queremos. Eu escolheria você. Se me dessem um único pedido, eu escolheria você. Se a vida acabasse hoje ou daqui mil anos, eu escolheria você.” Tati
Nota 3: A foto te lembra algo?

quinta-feira, 14 de março de 2013

Os tais dos morangos

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O café já esfriava. Olhava de um lado para outro, mexia a colherinha vagando em doces deletérios. Agora estava muito doce, mas antes era tão amargo, queixou-se. De amargo já não bastava a si próprio.
-Posso me sentar aqui?
Nem levantou os olhos, mas sabia pela leveza da voz quem ali se encontrava. Nada disse. Não havia nada a ser dito.
-Como você está?
-Eu? Ah, estou. Não?
A mulher encolhida na cadeira soltou um longo suspiro, mais para preencher aquele silêncio cravado como unhas na pele.
-É só uma conversa, você pediu para eu vir.
Aquele homem começou a tremer, e veja bem, fazia sol, meu bem, fazia um sol danado, fazia tanto sol que era difícil até enxergar algo. Não que já não estivesse meio cego.
-Pedi- e pela primeira vez olhou-a, mas não conseguiu vê-la.
-Então...-ela certamente começara a dizer algo, mas ele interrompeu.
-Quantos anos se passaram desde que?- a palavra faltou. Desde que. Algumas coisas não cabem nos nomes.
-Já fazem quatro anos. Você lembra? Sentados aqui. Você rabiscou alguma coisa no meu braço, eu te dei um tapa e você disse que nunca ia me perdoar. -riu.
-Você também não me perdoou. -sorriu triste, mas firme.
-Como não? Aqui estou.
-Você nunca está. Procuro em tanta gente um espelho teu. Não vejo nada, eu não vejo nada.
O olhar da moça encontrava-se distante, perdido.
-Quero ir embora- disse repentinamente.
-O que te impede?
-Eu não sei.
-A gente nunca sabe.
(Silêncio).
-Faltam uns cinco minutos pro sol se pôr.
-Quanto tempo faz desde que.
-O tempo não existe.
-Ultimamente acho que nem eu- e havia nele algo tão cansado, mas tão cansado, que aparentava mais estar com uns noventa anos.
-Hein?
-Existe um pedaço de mim, alguma coisa podre, um tumor, é isso, eu tenho tumor na alma, um lixo que nunca consigo arrancar, tirar fora do peito, isso está me matando, você entende, existe uma coisa que dorme dentro de mim até mesmo quando estou acordado, sabe, você vai embora agora mas por favor volta, faltam só dois minutos pro sol se pôr e vai ficar tudo escuro e esse cheiro de mofo doentio tá me deixando mal, eu sou um morango mofado, estraguei, assim, fora de época. Tá vendo aquela gaveta ali, demorou tanto tempo pra arrumar. -parou de falar, como se subitamente tivesse tomado consciência de sua voz.
-Desculpe. Acabei perdendo um amigo no meio dessa amargura. Você devia falar isso pro seu analista, eu não sou ninguém meu caro, nada, nadinha meso, olha só, nem aqui eu tô. Não sei onde errei, mas a gente nunca sabe né, sei que eu me fui, desculpa ter deixado minhas coisas espalhadas, é que eu achei que ia vir um vento sabe, um furacão, coisa do tipo, e ia levar tudo embora.
-Mas tudo ficou, esse gosto de mofo, esse cheiro de mofo. Você gostava tanto de morangos. Sinto muito, eu plantei um pé deles aqui fora mas não cresceu nada sabe, nadinha, nem um moranguinho só, aí eu falei pra você vir, faz quatro anos que eu plantei e nada de você chegar, aí eu te liguei, não conseguia parar de chorar, o pé secou, tadinho dos morangos, nem nasceram e mofaram, nem existem e são podres, aí eu te liguei, mas se você quiser ir tudo bem. Vai chover, o sol acabou de se pôr, quem sabe não vem por aí aquele vento que você falou.
-Olha lá, uma estrela, apontou, faz um pedido, reza, chora, ah lá outra estrela. São tantas.
- Elas parecem tão iguaizinhas, coitadas, já morreram.
-Mas ainda estão brilhando, olha você, meio morto assim, seus olhos ainda brilham mais do que elas, olha lá, elas tão brilhando pra você.
-As estrelas não sabem da minha existência.
-E daí, e daí, disse meio impaciente, o importante é o espetáculo que elas fazem, mesmo longes e mortas, veja só, você também.
-Você não ia embora?
-Você quer que eu vá?
-Mesmo longe ainda vou poder olhar pra você no céu, você não disse isso de nunca parar de brilhar, mas fica, tá escuro. Fica, aí quem sabe os morangos crescem, tadinhos, você gostava tanto deles. E eu mofei. Desculpa desculpa.
-Gosto mais de você do que dos morangos frescos.

"Abriu os dedos. Absolutamente calmo, absolutamente claro, absolutamente só enquanto considerava atento, observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui? Ou se não aqui, procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos. Achava que sim. Que sim. Sim" Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados

sexta-feira, 8 de março de 2013

Epifania das linhas paralelas


Como se um gesto ou uma palavra pudessem mudar toda uma vida. E como se a vida fosse só um instante. Pois então era. A moça, debruçada na janela que dava para um vasto cenário em abstrato, sentiu uma súbita vontade de gritar. Mas era mais como um grito interno, a garganta fechada, a epifania daquela sensação chegava cada vez mais devagar, rondando o lugar, brotando das flores, varrendo o chão. Descolando, talvez, uma parte plural de todo um conjunto que logo corria pra se esvair dela. O grito se transformou em um riso perpétuo. Não irônico, nem obstante, talvez doentio, obscuro, familiar, sozinho ou indiferente, mas nunca a tristeza estampada nos lábios. Essa coisa não existe, da tristeza esboçando um sorriso, é sempre o sorriso esboçando uma tristeza. Mas nem era nada, era só desejo de trocar os discos de notas agudas por um de notas graves. Todos estavam enferrujados, mas aquela música parecia durar para sempre. Aquele riso incontrolável de quem nem sabe o que quer mesmo querendo tanto saber parecia durar uma eternidade, mesmo que o eterno dure só um segundo. O pra sempre é um grito que não chega a ser formado, um desespero no vácuo. A garganta fechada e o coração muito mais, como se um instante pudesse trazer a resposta, e a brisa morna fosse fechar as abas de um esboço muito mal-feito naquela tarde. Havia um outro esboço, alguém do outro lado daquele imenso corredor, como um rabisco, só se enxergava os contornos, nem luz tinha e não era tampouco uma sombra. Havia chegado depois de um instante, após uma vida inteira, e aquela interrogação pairava no ar enquanto vinha andando em sua direção aquela figura. Uma interrogação que deixava solta a mudança paralela ao fracasso e à felicidade, como duas linhas paralelas se encontrando no abismo do infinito. Por si só e por si mesmas.
-Vamos?
-Vamos.